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Fazendo espuma

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Então me peguei pensando na palavra espuma. Veja a que ponto leva a falta do que fazer: o sujeito fica olhando para as nuvens, jogando tempo fora e começa a matutar sobre uma palavra.

Mas de fato eu pensava na beleza da palavra espuma. Mestre Aurélio a define em seu dicionário como “minúsculas bolhas que se formam num líquido geralmente viscoso…”. Não era essa imagem que eu tinha na cabeça. Era a da água do mar, que nada tem (ou nada devia ter) de viscoso. A definição ainda fala em “propriedades saponáceas”, mas não acho que a espuma da onda quando bate no corpo limpe o que quer que seja, a não ser a alma.

Tão lindo o som dessa palavra, que brinca em sequência com os diferentes formatos que a boca assume. Mas vou além: ela não se contenta em ser um verbete, ser lida ou falada, ela é dada a imagens e narrativas. Gosta de contar acontecidos, a danada. Por exemplo, a ascenção e queda de uma onda.

Começa pela sílaba “es”. Podemos imaginar a água vindo numa marola, se erguendo no ar, em curva, na formação da onda. Um “es” tão temido pelas canoas dos pescadores que avançam no escuro e tão aguardado por todos os surfistas e meninos querendo pegar jacaré.

Mas mal acabamos a primeira sílaba, a onda cai e explode no encontro do s com o p. A briga das consoantes dá caldo nos desavisados, descompõe o homem de olho no biquíni da menina ao lado e pinta com uma breve faixa de branco a água verde. A partir daí, o p inspira aos desavisados um palavrão; aos que ouvem de longe, paz; aos que leem essa crônica sem pé nem cabeça, pura perda de tempo.

Talvez isso falte à espuma: um x ou sh que dissesse do barulho que as bolhas fazem quando sobem e fazem casquinha no corpo. Mas talvez estragasse a palavra, um x é louco para estragar uma palavra.

A onda já se formou no “es”, já desabou no p e a única coisa que resta agora é o “uma”. Uma o quê? Uma espera, uma esperança? Sei lá, a espuma já desapareceu, dura o tempo de dizer seu nome. Mas na sequência vem outra onda com a palavra presa na garganta, louca para estourar.

Nem sei se a espuma existe mesmo. Na pele não ficou nada. Só a imagem de um menino brincando no mar entre outros meninos, dando caldo e risada, dentes brancos nas peles queimadas, uma lembrança tão viscosa que não sai nem com saponáceo.

 

 

 

 

 

 

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