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Folia, procrastinação e traição no Netflix

Carnaval e o Netflix agem como analgésicos – na forma de uma poderosa distração, uma muleta, um hábito mental, um…

By Redação , in News & Trends Tecnologia e Ciência , at 22/02/2017

Carnaval e o Netflix agem como analgésicos – na forma de uma poderosa distração, uma muleta, um hábito mental, um refúgio para a mente. Nós procrastinamos através de distrações porque elas nos ajudam a encontrar refúgio. Mas do que exatamente tentamos nos esconder?

Brasileiros são campeões da traição no Netflix. Pesquisa realizada pela empresa mostra que em 58% dos casais que começam a assistir uma série juntos, um dos parceiros não resiste à espera pelo outro episódio e passa a assisti-lo sozinho. A média mundial é 46%. Há muitos casos em que o parceiro que já assistiu o episódio encena uma incrível cara de pau ao assistir o mesmo episódio na companhia do outro.

O vilão é a mente. Melhor, a parte dela que busca encurtar o período de tempo entre o agora e a próxima instância de prazer.  Tem mais – os que antecipam episódios no Netflix serão os mesmos que deixarão tudo para depois do Carnaval.

O Carnaval vem aí, faltam poucos dias. Que bom, sussurra meu cérebro. Mas o que tem essa grande festa cultural e fonte de entretenimento a ver com o cérebro? E com o Netflix? Trata-se, em essência, do que se chama de distração.

É como se o Carnaval fosse um marco – vou deixar para depois do feriado da terça-feira Gorda, melhor, depois da quarta-feira de Cinzas, melhor ainda, deixar para a segunda-feira seguinte quando todo mundo vai começar as fazer as cosias que precisam ser feitas e, bem, seguramente tudo vai melhorar para mim… Essa é a forma pela qual as engrenagens do cérebro humano se dão ao luxo de procrastinar.

Carnaval e o Netflix agem como analgésicos – na forma de uma poderosa distração, uma muleta, um hábito mental, um refúgio para a mente.

Nós procrastinamos através de distrações porque elas nos ajudam a encontrar refúgio. Mas do que exatamente tentamos nos esconder?

A lista infelizmente é longa. Distrações nos escondem do tédio. A rotina de fazer sempre a mesma coisa, escutar a mesma ladainha, os problemas e as coisas miúdas que precisam ser resolvidas ao longo do dia.

Elas são uma cortina que permitem olhar para as emoções difíceis entre as dobras do blecaute. Tristezas que não precisam ser reavivadas. Compromissos que não queremos encarar. Relações que queremos deixar.

Distrações são uma forma de evitar que sua mente esteja no presente. O momento presente requer foco. Para estarmos cem por cento no presente precisamos mobilizar um esforço, um estipêndio de energia. Para que gastar energia trazendo a mente ao presente se posso deixa-la à deriva, rolando pelas encostas do prazer?

Distrair-se age como poderoso calmante para o desconforto e o medo. Ambas são produto da inquietação de centros nervosos no porão do cérebro que protegem o umbral do passado cujo conteúdo nem queríamos que estivesse guardado.

Distrações adiam apaziguar ressentimentos. Há coisas – normalmente pessoas – das quais não queremos ouvir falar. Tal é o tamanho do problema que vai haver aumento da pressão arterial, dor de cabeça e desassossego, para dizer o mínimo.

A distração funciona como ópio para um tipo de antecipação que causa estrago nas conexões do cérebro – a sensação que você possa não estar suficientemente ocupado. Se você não vai ter como estar ocupada, melhor deixar para enfrentar os motivos disso lá na frente.

E, como se estes motivos já não fossem suficientes, tememos o maior dos ogros que insistem em habitar nossos porões – a preocupação de não estarmos contentes, de que não somos suficientes para nós mesmos, de que tudo que está à volta é melhor do que nós, tudo menos nós é mais valia. Traga a distração.

Você pode estar pensando “mas o que pode haver de errado em ter um lugar para fugir de tudo isso? Quem quer enfrentar essas coisas horríveis? O que há de errado com um pouco de distração, uns dias de carnaval, uma espiadinha no próximo episódio, dar um tempo nisso tudo?”.

A ideia central aqui não é exatamente tentar ser produtiva todo o tempo, o tempo todo. Descansar, exercitar, sair, meditar, estar presente – não se trata de trabalhar o tempo todo. Descansar é importante, mas as distrações não são a única maneira que temos para descansar. Não é a única maneira de nos divertirmos.

Temos que ser realistas. Distrações podem ser bem vindas, mas elas nos afastam da cereja do bolo. Esta se chama felicidade. Estudos e análises mostram que a construção da felicidade está baseada no apoderar-se do momento presente. Significa abandonar o modus operandi da mente solta, navegando de forma distraída, para gentilmente trazê-la para o que está sendo captado pelos órgãos dos sentidos exatamente agora.

Enfim, quando o Carnaval e o no episódio do seriado vierem, eles não trarão o gosto da ressaca da procrastinação. Você estará no comando da sua vida, do seu momento presente. Seus sentidos estarão à disposição para a folia e o divertimento em tempo real. E não será mera distração.

Por Dr. Martin Portner,  Médico Neurologista , Mestre em Neurociência pela Universidade de Oxford e especialista em Mindfulness. Há mais de 30 anos divide suas habilidades entre atendimentos clínicos e palestras, treinamentos e workshops sobre sabedoria, criatividade e mindfulness. www.martinportner.com.br

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