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Gangues de rua fazem mulher de 72 anos buscar refúgio no México

em News & Trends/ONU por

Margarita Ramirez* já sabia quem batia com força à porta de sua casa. Ao abrir uma fresta, ela se deparou com diversos membros da Barrio 18, gangue de rua que domina a região em que mora. “Onde está seu filho?”, perguntaram.

A idosa, que se sustentava vendendo pão em uma rua pacata em sua cidade natal no oeste de El Salvador, reconheceu alguns dos “maras” (integrantes de gangues) que bateram à sua porta naquela noite. Ela mantinha há anos uma relação pacífica com eles, oferecendo pão em troca da política da boa vizinhança.

Mas o cenário mudou quando a gangue começou a importunar seu filho de 37 anos, José, dono de uma pequena loja de conveniência. Ele não conseguiu continuar pagando a “taxa de guerra” que exigiam e estava, agora, escondido na casa da mãe.

“Meu filho? Não sei. Ele não está aqui”, respondeu Margarita, tentando parecer tranquila. José correu sorrateiramente para o quarto de trás, pulou da janela e saiu correndo pela ruela. Fugiu do bairro e não voltou mais.

“Eu estava ali, mentindo para eles, mas pedi a Deus que me desse forças por mais que meu coração estivesse batendo acelerado”, disse Margarita, colocando a mão no peito.

A mentira funcionou, mas só até o dia seguinte, quando voltaram com a ameaça: “ou você entrega o seu filho, ou vamos nos livrar de você para nos vingar dele”. Margarita soube naquele momento precisava ir embora.

Com uma pequena mala de roupas, a senhora de 72 anos saiu de casa antes do entardecer. Dirigiu-se ao ponto de ônibus e partiu de El Salvador para nunca mais voltar. Na mesma noite, atravessou um rio na fronteira entre México e Guatemala, em uma jangada improvisada.

“Eu não sabia absolutamente nada sobre o México quando eu cheguei”, ela diz. “Eu não conhecia ninguém e nem sabia que ia ter que atravessar um rio. Eu não sabia de nada!”.

Um número crescente de homens, mulheres e crianças está sendo forçado a se deslocar devido à violência das gangues, conhecidas como “maras”, que atuam em El Salvador, Guatemala e Honduras. Os crimes variam entre tráfico de drogas, extorsão, roubo, até estupro e assassinato.

Entre os que cada vez mais buscam refúgio no México, provenientes dos países do Triângulo Norte da América Central, estão idosos como Margarita, que passam a enfrentar desafios diversos no país de acolhida.

“Recomeçar a partir do zero em um novo país é uma tarefa árdua, que pode ser ainda mais difícil para os refugiados idosos”, afirma Mark Manly, representante do ACNUR no México.

“Muitos são figuras estruturantes em suas famílias e comunidade, enquanto outros lidam com problemas relacionados a doenças ou ao desgaste natural causado pela idade”.

Desde que chegou ao México, em meados de 2016, Margarita recebeu o status de refugiada e, assim, passou a ser residente do país. Por meio de apoio financeiro oferecido pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ela tem condições de pagar pelo aluguel e comprar comida.

“Em El Salvador, eu vi pessoas da minha idade ficando cada vez mais abatidas e morrendo. Você vive em meio a um bombardeio constante de estresse”, disse Margarita, ressaltando que o recomeço no México deu a ela uma nova oportunidade de vida.

Apesar de simples, sua pequena casa de um cômodo — com um fino colchão, um abajur e uma pequena cômoda — não deixa de ser seu lar.

Para se manter ocupada, ela ajuda a cuidar do bebê de um jovem casal de vizinhos. Margarita também trabalha meio período como empregada doméstica, o que garante a ela renda o suficiente para viver e alimentar seu sonho de montar uma barraca no mercado local.

Enquanto isso, ela se esforça para realizar algo que não tinha condições de fazer em El Salvador: estudar. Abandonou a escola aos oito anos, e agora retorna à sala de aula 64 anos depois.

“Não sei ler muito, só a bíblia, e não sei escrever”, disse. “Quero aprender, agora que a oportunidade está bem na minha frente!”, completou.

Por meio de um programa liderado pelo ACNUR e pela Secretaria de Educação Pública do México, Margarita e outros refugiados que não tiveram a chance de estudar frequentam a escola duas vezes por semana para receber um certificado da escola primária.

No início da primeira aula, Margarita, algumas décadas mais velha do que seus colegas de sala, é a primeira a se levantar para se apresentar.

“Estou muito grata por estar aqui”, afirmou. “Estamos tendo uma grande oportunidade, e eu me sinto inspirada em ver tantas pessoas que vieram até aqui para aprender”.

*O nome foi mudado por motivos de proteção.

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