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Herança

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Herdei da vida uma alma leve num corpo tosco. Corpo que chuta o pé da cama, que sabe tossir, produzir lágrimas, sêmen e pelos, e tem duas pernas que sofrem para suportar o peso, quanto mais uma alma. Por isso ela derrete fácil, paira à toa, ao invés deste tronco difícil de vergar.

Minha terra me legou a busca pelo horizonte e as curvas dos morros, a necessidade de saber o nome das árvores, o matutar vagaroso, olhar para as pessoas na rua em busca de um conhecido, e isso de estar sempre meio deslocado em terras frias.

Do meu pai, os cabelos que embranqueceram cedo, a pele que apanha do sol, a verruga debaixo do braço, descobrir tudo depois de todos: andar, falar, namorar. Parecer uma boa pessoa até quando esbraveja e cantar na calçada enquanto espera para atravessar.

Da minha mãe, essa teimosa determinação, a resistência a não fazer nada, a sobrancelha que sabe se exprimir, preferir manga a qualquer coisa na mesa, o jeito de pensar pousando a mão na boca, fazendo um bigode com o dedo, e o estoque subitamente baixo de paciência.

De um avô, essa mania de caminhar sem rumo. Do outro, balançar a perna sentado.

Da vida, me foram dados pés que me guiaram bem até aqui, embora essa sensação de que eles saltaram muitos anos. As mãos se atrapalham um pouco, derrubam algumas oportunidades, mas respeitam demais tudo o que tocam. Meus cotovelos não doem de inveja de ninguém, nem meus joelhos se dobraram às importâncias que não mereciam. Já quebrei dedo, calcanhar, osso e algumas expectativas.

Meu corpo me destinou ao que sou e acho que não o decepcionei. Sempre me pareceu que ele se divertiu comigo. Deu-me habilidade com a bola, mas a fraqueza de se cansar aos 28 minutos do 1° tempo. Um ouvido musical e ser surdo do ouvido de escutar. Ser fascinado pelas mulheres e absolutamente sem jeito de demonstrar isso. Tolerante a alguns imbecis e não ao glúten.

Das tantas noitadas, ficou um fígado meio combalido, amigos a quem posso contar os maiores podres, essa tentativa de entender o que dizem as estrelas, ouvir meus passos no silêncio e as músicas que martelam na cabeça.

De meu, o sono fácil, uma preguiça colossal de fazer ginástica, a burrice de gostar de quem não devia, o orgulho de ser meio urso e buscar ficar sozinho de vez em quando (um quando que já durou 8 meses). Para depois reaparecer tão sábio como nunca fui e todo vira-latas, fazendo festinha para o primeiro que aparece.

Nada pedi e ganhei tanto. Não imaginava que para mim estava reservado esse otimismo sem motivo, uma grande mulher e filhos, estar muitas vezes acima das nuvens, conhecer o fundo do mar, Lucca, Vence, Tiradentes, a Vila Belmiro, provar Calvados, rã e chorar em ópera.

Não sei quem assinou o testamento, mas sou grato.

 

 

 

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