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Friday, July 3, 2020
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Impressionante

Caminhava o sujeito pela calçada, esburacada como andam tantas na cidade; quando não é buraco, é o cocô que algum…

By Cássio Zanatta , in Cássio Zanatta News & Trends , at 16/05/2017 Tags:,

Caminhava o sujeito pela calçada, esburacada como andam tantas na cidade; quando não é buraco, é o cocô que algum cachorro sem dono deixou pelo caminho. Quando tem dono, este costuma recolher o cocô com um saquinho plástico e jogar no lixo mais próximo. Outros, nem isso fazem: largam o saquinho ali mesmo, um cocô envelopado, esquisito.

Andava depressa para sua idade, devia ter lá seus 70, aprendeu a caminhar no ritmo de São Paulo. Sempre me intrigou essa pressa. Por que as pessoas aqui andam tão rápido? Não é possível que 12 milhões de pessoas estejam atrasadas para seus compromissos.

Ia só. Seria viúvo ou só um senhor rabugento que não gosta de companhia? Gostava de falar sozinho, teria altas discussões consigo mesmo? Seria um deputado aposentado? Chegou a fumar 4 maços por dia? Quando garoto, amava mais os Beatles ou os Rolling Stones? Já foi até Itanhaém numa Kombi com 3 crianças se estapeando no banco de trás?

Sua estatura é do tempo em que homens eram baixos. Seu colete, de quando ainda se usava. Seu passo tinha elegância, dava a impressão de ser bem apessoado, tranquilizado por uma boa aposentadoria, sem sofrer com aflições de dinheiro. O que o afligia era: por que não atravessar a rua e caminhar pela sombra, mais adequada ao colete do que debaixo desse sol de rachar carcaça?

Via-se com clareza que ele não gosta de abacate, nunca gostou, desde pequeno, abacate batido com açúcar, abacate na salada, de qualquer jeito ele odeia. Não faço ideia do que me levou a concluir isso, mas estava claro.

Caminhava em silêncio, e muito o irritava se alguém assobiasse ao seu lado. Assobio é o tipo da coisa que só é legal para quem assobia. No mais, o sujeito que ouve não pode ouvir toda a orquestração que só existe na cabeça de quem assobia, só lhe chega a música seca, sem graça, aquele fiufiu besta.

Também levava um jornal debaixo do braço. É como eu, um irmão da resistência, desses teimosos que ainda assinam jornal, ou estaria justamente voltando da banca? Conversou com o jornaleiro, desceu a lenha no Governo, apostou duas cervejas na chuva mais tarde, provou por a mais b que o centroavante estava impedido?

Teria sido um torturador frio, sádico, que toda vez que sai de casa teme ser reconhecido? Tem tara por mulher de calça vermelha? Chora de emoção em ópera ou de raiva por ter de ir à ópera para não contrariar a mulher (se ainda tem mulher, coisa que questionamos há seis parágrafos)?

Seguia com o olhar fixo em frente, sem se afetar com o mundo em volta, e estava certo, o mundo em volta não parecia ter novidade para contar. Ou talvez já tivesse visto de tudo nessa vida e andasse cansado, se sentindo um extra sem importância num filme banal, reprisado 48 vezes no cinema do subúrbio.

Enfim, caminhava o sujeito pela calçada. Pensei que fosse tropeçar no bueiro, mas não. O vento ventou só até a outra quadra. A bicicleta na contramão bem que tentou um acontecimento, mas ninguém atravessava a rua. Não houve vaso caído de janela alguma, nem grito nem suspiro.

Esperei que acontecesse algo, o homem dobrou a esquina, não houve mais nada. Nadica. E eu não sou homem de ficar inventando coisas.

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