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Irã e Ocidente: sonhar mais um sonho impossível

O Ocidente tem que entender que a lógica de Washington, com relação a essa dança geopolítica do acordo nuclear entre…

By Redação , in Mundo News & Trends , at 13/04/2015

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

O Ocidente tem que entender que a lógica de Washington, com relação a essa dança geopolítica do acordo nuclear entre o Ocidente (EUA e Europa) e o Irã, é a seguinte: entre salvaguardar os interesses ocidentais no Oriente Médio e derrubar o regime teocrático iraniano, eles estão com a primeira opção, mesmo que, para isso, tenham que dar as costas aos tradicionais aliados israelenses e sauditas. O deles primeiro, sempre, custe o que custar.

Para aqueles que estão sonhando com uma derrocada do regime teocrático iraniano, após a suspensão das sanções econômicas (caso isso aconteça de fato), pode-se dizer que isso não passa de um sonho. A economia iraniana é extremamente controlada pelo governo e essa suspensão só fortaleceria esse controle.

Aos que sonham em manter Israel e Arábia Saudita como fiéis escudeiros dos interesses norte-americanos na região, afirmo que isso, também, não passa de um sonho. Esses dois países, nas últimas três décadas, trouxeram infinitamente mais instabilidade regional do que o Irã. Causaram guerras regionais, insuflaram movimentos populares contra elites ocidentalizadas pró-americanas, entre outras agitações.

Israel e Arábia Saudita, no final das contas, se mostram histéricas e inconsequentes. Enquanto o Irã, por outro lado, sempre foi veementemente contra o Iraque do Saddam Hussein e o Talibã no Afeganistão, paradoxalmente financiados pelo próprio Ocidente e seus aliados regionais.

Aliás, por falar em antigos aliados, vale a pena lembrar do Talibã e de sua barbárie no Afeganistão, Saddam Hussein e todo o seu sonho delirante pan-arabista, Al-Qaeda e Estado Islâmico com seus horrores terroristas, tendo a Arábia Saudita – uma teocracia na prática – e o Catar – seu porta-voz tecnológico-informacional – como seus principais financiadores e promotores do caos regional que desestabiliza os interesses norte-americanos na região. Todos sunitas.

Para aqueles que sonham que a Tel Aviv de Benjamin Netanyahu vai se reaproximar de Teerã por conta de Washington e, deste modo, a paz regional será encaminhada, isto sim é um grande sonho. Mais fácil os israelenses estabelecerem relações diplomáticas com a Arábia Saudita.

Para aqueles que estão vendo o Obama como um líder que prega a paz e o diálogo em suas relações diplomáticas, pode-se dizer que isso é uma ilusão de ótica. Washington está apostando suas últimas fichas naqueles que restaram para se opor a todo o caos instaurado sobre seus interesses naquela região. O Irã, outrora aliado de primeira linha, hoje, um inimigo blasé-proforma. Por que os EUA resolveram apostar suas fichas nos xiitas do Irã? A resposta está acima. O jogo político-religioso conta e muito, sim!

E o que está deixando todo o mundo apreensivo é que os EUA saem como mocinhos, os iranianos saem como mocinhos, a Europa sai como mocinha e o resto dos árabes, bem como os israelenses, saem como vilões. Até o Papa está elogiando os “mocinhos”. Por quê? Porque a Guerra Fria acabou e a China está com as quatro patas dentro da indústria petrolífera do Irã, o que deveras preocupa os norte-americanos e europeus, principalmente.

Uma coisa que aprendi bem enquanto estive no Irã foi um dos ditados mais populares por lá: “Nós, iranianos, empurramos com as mãos para puxarmos depois com os pés.” Ou seja, muita cautela na comemoração desse acordo. Devemos botar fé se evoluir para uma plena retomada das relações diplomáticas bilaterais entre os persas e os norte-americanos. Caso contrário, vale o ditado acima. E aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Por Jorge Mortean, Geógrafo, bacharel pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Ministério de Relações Exteriores do Irã. Pesquisador das relações diplomáticas entre a América Latina e o Oriente Médio, é doutorando em Geografia Política, também pela USP, e Professor do curso de Relações Internacionais da FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado.

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