Madrugada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Claro que o vizinho foi ao banheiro. Você pode estar dormindo em um loft em São Francisco, numa espelunca no Irajá, na suite real do Negresco em Nice ou na casa da madrinha Rosa em São José, que o vizinho irá ao banheiro.

Particularmente de madrugada, o vizinho sempre vai ao banheiro – uma, duas, três vezes. Como se, horas antes, tivesse encarado seis xícaras de chá de hortelã ou quinze rodadas de chopp, o que mexe um pouco com seu equilíbrio, já que no caminho o vizinho chuta cadeiras, que arrastam no assoalho, e ainda derruba vasos da dinastia Richter.

O intrigante é imaginar por que motivos alguém levaria moedas, chaves ou bolinhas de gude ao banheiro, e sempre as deixa cair onde a acústica é mais potente: nunca sob o tapete ou o carpete, mas sim no ralo, por exemplo, provocando aquele eco nos canos do condomínio.

Interessante que, para ir ao banheiro, o vizinho parece calçar tamancos de madeira. Cada passo seu lembra uma empolgante apresentação de flamenco em Sevilha. Fora que ir ao banheiro lhe desperta a inspiração, porque o vizinho solta sua voz em emocionadas árias de Puccini.

Por algum complexo mecanismo, a descarga do vizinho faz disparar o alarme da moto estacionada debaixo da sua janela. Que, por sua vez e não se sabe por que diabos, cria o clima perfeito para os gatos nos telhados próximos namorarem. Gatos se amando, claro, atiçam os cães da redondeza, seus latidos acordam os galos, que se esguelam como se o despertador ainda não tivesse sido inventado. Mas nunca o primeiro galo a cantar é o mais perto de onde você está. Não: numa tortura crescente, primeiro canta o galo mais distante e, aos poucos, os cantos vão chegando, cada vez mais escandalosos.

Agora, divertido mesmo é constatar que ser acordado de madrugada, por alguma sinapse misteriosa, faz-nos lembrar de alguma apresentação urgente que não preparamos, de que ainda não fizemos o imposto de renda a três dias do prazo e que estamos devendo para a Caixa.

Se não é o sapo, é o besouro batendo na parede; se não é o curiango na árvore, é o engano no celular; se não é o pernilongo, é o carro tunado.

Quando, enfim, você conseguir pegar no sono, se estiver num hotel, seu vizinho do lado baterá à sua porta, com a clássica pergunta: “Ué, aqui não é o 702?” Ou seu vizinho do outro lado vai ligar o noticiário na TV no talo, já que sua diversão é fazer barba escutando de longe as notícias. Se estiver na casa da madrinha Rosa, a empregada do vizinho, que chega às seis da manhã, tentará comprovar sua tese de que, até que alguém abra a porta, o dedo jamais deve se descolar da campainha.

É sabido que Deus nos pede encarecidamente para amar o próximo como a si mesmo. Mas como, se o próximo curte Carpenters às três da manhã? Estuda canto lírico antes do sol nascer? Não vira um sonâmbulo qualquer, mas uma reencarnação de Fred Astaire, brilhando no sapateado?

Menos uma madrugada. Mais uma manhã chega. Estranhamente, em silêncio. O galo não canta, o curiango emudece, as motos sossegam, os gatos estão saciados, o vizinho já saiu. Tarde demais.

Nada como um dia de trabalho pra gente descansar um tantinho.

 

 

 

 

 

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