fbpx
Tuesday, September 22, 2020
-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-


Manoel

     Manoel escreveu: “O homem estava parado naquele lugar mil anos sem orelhas.”      Meu tio detestou: “Como pode, alguém…

By Redação , in Brasil Cássio Zanatta Mundo News & Trends São Paulo , at 04/08/2020

     Manoel escreveu: “O homem estava parado naquele lugar mil anos sem orelhas.”

     Meu tio detestou: “Como pode, alguém ficar mil anos sem fazer nada? E ano por acaso tem orelha?” E continuava sapecando açúcar no maracujá, chacoalhando a colher no mesmo ritmo da negação da cabeça.

     Manoel insistiu: “Eu queria crescer pra passarinho.”

     O professor, que achava tudo depois do Simbolismo uma porcaria só, desaconselhou o poema, fechou o livro com estrondo, deu o assunto por encerrado e perdeu de vez o critério para corrigir.

     O poeta de araque riu de Manoel:

     – Olha isso: “O homem que possui um pente e uma árvore serve para poesia.” Faça o favor. Isso não é arte nem hoje, nem nunca. Perto de Baudelaire, Blake, Borges, é lixo.  

     Achou que venceu. Deixa ele.

     O leitor que havia lido de tudo, leu uma, duas vezes: “Falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores”. E deu seu pitaco: “Ah, assim até eu sou poeta.”

     Mas quem falou que leitor não pode ser poeta?

     Confusão maior foi com a menina bonita. Eu olhando pra ela, ela pra outra mesa. Eu pedi cerveja; ela, coquetel de frutas. Tentando achar seus olhos, levei mais drible que marcador do Garrincha. Fui pegar na mão, fugiu feito bagre ensaboado. Arrisquei tudo em Manoel: “Quando eu nasci, o silêncio foi aumentado”. Ela riu, sem entender. Mas eu entendi que a menina não seria ela.

     Demorou uns bons anos, anos de prática e preparação… PAM! Juro pelo meu pai, minha mãe, Manoel e todos os poetas, que neste exato instante uma rolinha caiu aqui no chão do quintal. Corri até ela, estava deitada de lado, piscou três vezes os olhos assustados, virou-se de costas, juntou as patas e endureceu. Chamei Pedro para a gente enterrar a delicadeza debaixo do limoeiro.

     Dormir pra sempre debaixo de um limoeiro, sob seu perfume e pétalas tão pequenas, não é má ideia.

     “Andar à toa é coisa de ave. Meu avô andava à toa.” Pois então. O bicho foi para o mundo de Manoel.

     Depois veio um silêncio onde apenas teve vez um ou outro escapamento. Não sou poeta, daí isso tudo ter ficado meio meloso. Melhor a explicação definitiva do Ox, no “Pontos de Fuga” do Milton Hatoum:

      “Às vezes a poesia tem alguma razão para não ser entendida.”

Comments


Deixe uma resposta


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *