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Meu pai sentado num camelo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Poucas pessoas no mundo têm parentes em Divinolândia. Eu tenho. Divinolândia é vizinha de São José. Uma cidade pequena, simpática, que cultiva café, batata e hoje produz até vinhos bem conceituados. Mas do que eu gosto mesmo é do seu antigo nome: Sapecado. Imagino que o nome tenha nascido de quando ainda era um punhadinho de casas espalhadas num morro, Sapecado, tão mais simpático que Divinolândia. Deviam ter mantido. Enfim.

O fato é que uma tia de lá deu de presente para meu irmão Paulo uma foto antiga, lá dos anos 30. Na foto estão meu pai, ainda criança, e meu nonno Ireno, numa visita à São Paulo. Necessário dizer que, nos anos 30, vir de São José a São Paulo era uma viagem tão distante, complicada e onerosa quanto hoje ir para Ulan Bator.

Na foto tão preciosa, meu pai está sentado num camelo, segurado pelo nonno. Sim, você leu camelo. E logo dirá: “mas o que fazia um camelo em plena cidade de São Paulo”? Respondo, ajudado pelo Google: o Parque da Aclimação foi sede do primeiro Zoológico de São Paulo. Havia pavões, emas e até elefantes caminhando pelo seus gramados. Só em 58 seria inaugurado o Zoológico que conhecemos hoje, nos cafundós da Água Funda.

Lá está meu pai, elegante em sua roupinha de passeio, sentado entre as duas corcovas – o que diferencia o camelo de um dromedário, conforme nos ensinaram na escola e nas enciclopédias, que já não existem, como o Zoológico do Parque da Aclimação. Papai exibe um sorriso meio orgulhoso, meio desconfiado. Orgulhoso como o Tarzan que sonhava ser, mas desconfiado daquele bicho imprevisível e tão estranho à paisagem. Já o nonno ostenta a elegância simples dos homens daquele tempo, de paletó, gravata e chapéu, e tem o ar que assumem os pais quando possibilitam aos filhos alguma experiência bacana.

Na foto, nenhum dos dois tem cabelos brancos. Meu sonho é tê-los como os que meu pai herdou do seu, daqueles que viram referência na rua: “Lá está Mirtes, ao lado daquele senhor de cabelos brancos.” ou “Claro que estamos no casamento certo, olha ali os cabelos branquinhos do Cássio.”

Vou tirar cópias da foto e distribuí-las para as tias que ainda estão por aqui. Daremos boas risadas, de preferência comendo o pastel que só tia Cidinha sabe fazer, e ouvindo as histórias de tia Cecília, tia Landa e as canções de tia Zotinha. Até chegar a hora em que as risadas vão se transformando em choro, que esse sanguinho italiano é essa coisa.

Mas de tudo, o que mais me comoveu na foto não foi sua descoberta, ver meu pai ainda criança, nem o camelo. Foi reparar nos sapatos tão gastos do meu nonno. Os sapatos quase acabados do meu querido, simples, elegante e digno nonno.

 

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