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Minha primeira vez

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Quem alertou minha mãe foi a professora:

– O menino não enxerga lá muito bem.

– Como assim? – duvidou minha mãe.

– Como assim que, cada vez que ele tem que copiar a aula, ele se levanta da carteira, anda até chegar a um metro da lousa, lê, decora um trecho, volta para a carteira, escreve o que decorou e depois repete: levanta, vai até a lousa, decora, volta, escreve… ele não consegue ler do seu lugar – a segunda fileira!

– Mãe do céu. – minha mãe deve ter dito, como sempre dizia quando se espantava.

Meu pai me levou ao oftalmologista.

– Que letras são aquelas? – perguntou o doutor.

Meu pai foi ficando preocupado. O médico aumentava o tamanho das letras.

– É um… J. Não, não é J, é… X. E a segunda, ou é Z ou é F. Depois… é letra ou número?

Nunca mais vou esquecer a cara do meu pai. Não sei se pela tristeza pelos meus 8 graus de miopia ou por não ter percebido antes.

– Filho, por que você não disse que não enxergava direito?

– Pensei que era assim que todo mundo via.

Claro que eu desconfiava. Quando a molecada da rua apontava para um balão no céu – e como tinha balão no céu – eu fingia que via, mas na verdade imaginava. E quando meu pai nos levava para assistir ao Pelé jogar, nem eu nem o zagueiro víamos a bola.

– Olha aquela estrela ali – apontava meu pai. É Sirius. Perto dela, o Sol é um tiquinho.

– Que linda – eu imaginava.

Ontem, quem foi ao oftalmologista foi minha filha. Não foi a primeira consulta, Maria já havia ido antes, sem novidades. Mas dessa vez, quando ela não conseguiu identificar as letras menores, revi no seu rosto a mesma decepção do meu pai.

– Filha, é só um grau de miopia – tentei animá-la. Não vai impedir você nem de estudar, nem de brincar, nem de nadar, nada.

– Tá, pai. Mas é que eu não queria.

Eu também não queria, filha. Não queria ter tido que usar aqueles óculos antigos, tão feios, lentes fundos de garrafa. Não queria ver os olhos do meu pai tristes por mim. Não queria ver um aro esconder seu rosto tão bonito, Maria.

O que eu queria era dizer que, uma semana depois da consulta, meus óculos ficaram prontos. Idos de 1972. Fui à Cinótica, ali na Conselheiro Crispiniano, no centro de São Paulo (a loja nem existe mais). Quando coloquei os óculos e abri os olhos e olhei em volta para as pessoas, para a rua, a calçada, a banca, o contorno das folhas das árvores, os luminosos, para tudo…

Filha, você precisava ter visto os olhos do meu pai me vendo ver pela primeira vez. Mãe do céu, diria minha mãe.

 

 

 

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