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Friday, October 30, 2020
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Minhoca

-Minhoca! A princípio, nem entendeu o que o outro gritava, eufórico, revelando as cartas sobre a mesa. Estava ocupado demais…

By Redação , in Cássio Zanatta , at 14/04/2020

-Minhoca!
A princípio, nem entendeu o que o outro gritava, eufórico, revelando as cartas sobre a mesa. Estava ocupado demais em seu devaneio de onde gastaria a pequena fortuna conquistada: quitando as dívidas, dez dias em Paris, pedindo Rosa em noivado…
– Mi-nho-ca… mi-nho-ca… – cantava o outro num sorriso vitorioso.
O sujeito insistia, já puxando para si o dinheiro das apostas. Ei, péra aí, como assim? O que estava acontecendo? Ele havia vencido a rodada mais disputada, sua vitória era clara. Apresentara a todos sua trinca de damas, disfarçada o tempo todo com uma postura displicente, de quem nada escondia de valioso na mão. Um a um, os jogadores foram apostando, até que ele deu o bote e expôs seu tesouro. Talvez uma joia para Rosa? Ou dou entrada num carro bacana?
O mais velho da mesa olhou para ele, deu de ombros e disse:
– Minhoca, ué.
A coisa ficava séria. O que aqueles doidos estavam dizendo? E o dono da Minhoca rindo, vencedor. Não se conteve:
– Que porra de Minhoca é essa?
Todos à mesa se entreolharam, como se estivessem diante de um amador a quem fosse preciso ensinar as regras e macetes. Com voz inalterada, o mais velho prosseguiu:
– Uma sequência que vai de 7, 8, 9, 10, pula as figuras e acaba no ás. Poucas mãos podem bater uma Minhoca. E, no caso, a Minhoca venceu sua trinca de damas.
Desespero. Pânico. Surrealismo. Aquele pessoal só podia estar brincando.
– Que história é essa? Essa coisa de Minhoca nunca existiu!
Um outro jogador deu um longo gole na cerveja, limpou os bigodes com o dorso do braço e, meio sem paciência, perguntou:
– O amigo acaso é um iniciado nas cartas?
– Jogo desde que me conheço por gente.
– E nunca ouviu falar em Minhoca?
– Nunca. Aliás, nunca que existiu esse troço aí, caceta.
Um terceiro jogador se levantou com certa irritação e algum estrondo. No gesto, chacoalhou a mesa, deixou cair a cadeira, fez tremer cartas e copos.
– O senhor não está nos chamando de mentirosos, para não dizer ladrões, está?
E agora? Olhou em volta e viu que estava em apuros. Eram cinco contra um. Não havia disfarce ou simulação nos rostos, só a expressão de quem iria fazê-lo engolir aquela ofensa com caceta, minhoca e tudo. De 10 dias de prazeres em Paris, via-se agora gastando os tufos restaurando os dentes. Blefou:
– Aqui não tem macho pra me convencer de que existe Minhoca.
O céu é um lugar agradável. Tem nuvens, uma brisa gostosa e, graças ao bom anfitrião, nada de harpas e coro de anjos. A gente ganha umas asas e encontra velhos companheiros. E o melhor: está cheio de bons jogadores. Gente séria, que não trapaceia. No máximo, os mais experientes coçam as barbas, ajeitam a bata e, como ninguém é santo, às vezes disfarçam a mão. Mas nunca, nunca, iriam inventar uma coisa como aquela história de Minhoca.

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