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Monday, August 10, 2020
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Muchos pájaros en la cabeza

Em espanhol dizem ser uma expressão. Merecia ser um verso. Quer dizer que o cidadão(ã) está com a cabeça viajando,…

By Cássio Zanatta , in Cássio Zanatta News & Trends , at 20/12/2016 Tags:,

Em espanhol dizem ser uma expressão. Merecia ser um verso. Quer dizer que o cidadão(ã) está com a cabeça viajando, em algum lugar difícil de precisar, absorto no que poderia ser, não no que é – pior do que com a cabeça nas nuvens: com as nuvens na cabeça.

Sonhando com tudo o que a agenda tem enorme preguiça em pensar. O que o calendário desconsidera por considerar perda de tempo. Um pecadilho a que o inspetor faria vista grossa, mas que uma declaração jamais omitiria. Um lugar que talvez fosse poupado pelos saqueadores mas jamais seria cogitado como destino turístico pela Agaxtur.

Muchos pájaros en la cabeza. Voo que pode durar oito segundos, 20 minutos, 114 meses, a vida. O intervalo entre a pomba decidir voar e se atirar do parapeito. Um lapso. O suspiro. O parecer com ela que dá aquele susto na esquina. O tempo do elevador subir ao décimo andar num prédio de três. O olhar no horizonte que despreza a parede em frente. O parágrafo que se quebra

em inútil rebeldia.

A expectativa do livro esperando sua hora no sovaco do guarda. A pétala tragada de surpresa pelo redemoinho. O segundo entre a criança pausar as palmas e soprar a vela.

Inútil a torre de comando chamar quando a cabeça decola. Talvez funcionasse um estalar de dedos, mas não garanto. A terceira nuvem já ficou para trás, os cabelos já ficaram para trás. Um lenço muito colorido e perfumado lhe envolve o rosto e tapa os olhos para sempre, mesmo que o vento o desenrosque.

Muchos pájaros em la cabeza. O pensamento que fugiu da gaiola. Uma vertigem mesmo com os pés no chão. O salto que, só no ar, se dá conta de estar sem paraquedas. A lua está sempre acima, mas às vezes o sol fica embaixo. As estrelas o cercam, mesmo de dia. Um urubu lhe faz companhia no voo e isso é muito gentil da parte dele. A terceira página de um jornal que o vento leva nas costas desde 1986 bate-lhe no rosto, mas a manchete não diz nada que merecesse estar no ar há tanto tempo.

Há folhas, muitas, não sabia que voavam tão alto. E há coquinhos amarelos, roídos pelas maritacas, caídos das palmeiras e espalhados pelo chão. Sua avó lhe acena e parece estar preocupada: “Esse menino…” Por um bolinho de chuva, a cabeça aterrissaria.

Mas ela segue voando, alto, mais alto, até que uma campainha, beliscão, assobio de amigo, latido, régua batida na carteira, bola na parede, um tapa, o sinal sonoro na fila do caixa, estouro de bexiga ou pedra quebrando o vidro, traga-a de volta.

E mal chega, já olha para os lados e refaz a mala.

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