Mulher-bomba: outra investida dos grupos radicais

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Há alguns anos, na primavera de março, a estudante palestina, Ayat al-Akhras, apertou o botão no cinto amarrado a ela e detonou um artefato explosivo em um supermercado lotado em Kiryat HaYovel, Jerusalém.

Essa foi uma época de extrema violência sangrenta por toda Israel e nos territórios ocupados quando as pessoas se acostumaram com a brutalidade selvagem da segunda intifada – ou revolta.

O mais chocante sobre o caso Ayat foi uma moça tão jovem ser recrutada para tal ação. Aos 18 anos, ela foi a mais jovem “homem-bomba” da Palestina.

Uma de suas vítimas foi uma estudante israelense com apenas um ano mais nova do que ela, Rachel Levy. As duas meninas viviam a poucos quilômetros uma da outra na Cisjordânia e ambas tinham sonhos para o futuro, Ayat, inclusive, estava prestes a se casar.

Essas mortes foram uma lembrança dolorosa do poder de recrutar os mais vulneráveis ​​e marginalizados para organizações terroristas.

Ayat, uma aluna exemplar, tinha crescido desiludida com a vida no Dheisheh – um campo de refugiados – fora de Belém. Ela vivia com a mãe, o pai e 11 irmãos, testemunhando a humilhação da ocupação que cercava os limites da sua vida como membro da terceira geração de um povo deslocado.

Pouco tempo depois de sua morte, a mãe de Ayat disse chorando que não tinha ideia que sua filha, uma estudante com as melhores notas, tinha sido recrutada como um bombardeiro.

“Ela era uma boa menina”, disse a mãe de luto em sua casa escura dentro do campo.

Mas uma de suas irmãs disse: “Ela sacrificou sua vida para que as pessoas possam viver”. E na Al-Quds University na Cisjordânia, um lugar para o ativismo palestino, Ayat se tornou um ícone, uma heroína, uma libertadora de seu povo.

Em um ponto, as mães das duas meninas mortas se encontraram. Enquanto a reconciliação é uma palavra muito forte para essa reunião, elas conseguiram aceitar a perda dolorosa de cada uma. O presidente George W. Bush citou os assassinatos como uma ilustração da tragédia sem fim no Oriente Médio.

“Quando uma jovem de 18 anos de idade na Palestina é induzida a explodir-se e, no processo mata uma adolescente israelense de 17 anos, o próprio futuro está morrendo”, disse ele.

No mês passado, a imprensa libanesa informou que uma mulher síria identificada como Umm Jamal foi presa por autoridades da Líbia na cidade de Al-Nabi Sheet no Vale do Bekaa, por suspeita de colaboração com a Frente Al-Nusra, a organização terrorista islâmica sunita que luta contra o presidente sírio Bashar al-Assad.

Al-Nusra – ou “A Frente de Apoio ao Povo do Levante” – é um ramo da Al-Qaeda criado em janeiro de 2012, que opera na Síria e no Líbano. Ela tem sido citada como “a mais agressiva e bem sucedida” dos grupos rebeldes sírios.

Durante o interrogatório, Umm Jamal foi indiciada por ter confessado que estava procurando outras mulheres para recrutar a fim de ajudar a frente em “atos de sabotagem”. Poucos dias depois de sua prisão, Al-Nusra atingiu Bekaa novamente, desta vez por um homem-bomba que matou dois soldados sírios em um posto do exército em Hermel.

O mês de março marca os três anos desde que a guerra começou na Síria, contabilizando mais de mil dias de guerra. As conversas em Genebra acabaram com a esperança real de reconciliação diplomática e, apesar da aprovação da resolução 2139 do Conselho de Segurança da ONU sobre a assistência humanitária à Síria, a batalha no terreno é feroz.

Não existe força rebelde unificada, mas sim uma colcha de retalhos de grupos rivais, alguns conduzidos por ideologias radicais islâmicas e apoiados por forças fora da Síria.

Ativistas falam de uma “Primavera ofensiva”, em que os rebeldes vão tentar tomar Damasco, a capital da Síria, das mãos do regime de Assad. Isso significa mais recrutas de ambos os sexos, especialmente os estrangeiros, os quais também estão sendo recrutados para a causa.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos – um grupo de acompanhamento com base no Reino Unido – estima que existam cerca de 5 mil mulheres que lutam na guerra síria. Não está claro quantas delas são combatentes estrangeiras.

O Jornal britânico Daily Mail informou em janeiro que duas mulheres de origem britânica foram pegas no aeroporto de Heathrow levando dinheiro em suas roupas íntimas, a caminho do Oriente Médio.

De acordo com Lina Khatib, em Beirute, diretora do Carnegie Middle East Center, Al-Nusra recentemente começou a usar mulheres para transportar explosivos até o Líbano, pois levantam menos suspeitas entre os serviços de segurança ao longo da fronteira do Líbano com a Síria em áreas conservadoras como os redutos do Hezbollah, o principal alvo de Al-Nusra no Líbano.

“Esta não é a primeira vez que um grupo afiliado da Al-Qaeda recrutou mulheres para fins de jihadistas”, diz Khatib. “Isso mostra que Al-Nusra está buscando novas formas de sustentar sua série de ataques no Líbano que se destinam a pressionar o Hezbollah a parar o seu envolvimento militar na Síria em ajuda do regime de Assad”.

O que está impulsionando as mulheres para o campo de batalha?

“A guerra é o grande equalizador”, explica Shadi Hamid, do Brookings Institution. “Em lutas de libertação ou insurgências, muitas vezes as mulheres desempenham papéis importantes em caso de necessidade”.

“Pode ser no campo de batalha, mas também através de apoio logístico, espalhando a mensagem do grupo, e alcançando os recrutas potenciais. A luta tem precedência sobre os papéis de gênero tradicionais e pode ser considerada verdadeira até mesmo para grupos islâmicos radicais, como Nusra.”

Rafif Jouejati, um dos delegados da oposição síria nas resoluções de Geneva 2, diz que as mulheres pegaram em armas para o Exército Sírio Livre, já em 2011.

“As mulheres têm vindo trabalhar em várias funções durante a revolução: nas manifestações, para prestação de ajuda ou para lutar na linha de frente”, diz Rafif.

Enquanto costumava ser mais familiar ver mulheres marchando em manifestações do que na linha de frente – como a atriz Alawite Fadwa Suleiman, que se tornou conhecida por liderar um protesto de maioria sunita contra o governo de Assad em Homs – o número das que contrabandearam armas sob suas vestes religiosas diminuiu.

No início do ano, um comandante do Exército Sírio Livre confirmou que as mulheres vêm formando suas próprias brigadas. Nas áreas de Aleppo, mulheres curdas lutadoras desempenham um papel fundamental na segurança e foram treinadas em combate urbano.

Mas Al- Nusra, uma organização mortal que tem um papel crucial na divisão da oposição síria entre moderados e radicais jihadistas, está operando com uma agenda diferente, de acordo com especialistas. O que eles querem é um estado islâmico que seja governado pela lei Sharia.

“As mulheres desapareceriam. Nós seríamos cobertas da cabeça aos pés, como no Afeganistão, não poderíamos sair de casa e nossas filhas não poderiam estudar”, diz Kafa, uma mulher de 32 anos de Homs que teme o futuro se Al-Nusra ganhar uma posição mais substancial no país.

As mulheres estão operando a partir de ambos os lados da guerra síria. O governo de Assad emprega milícia de mulheres para executar verificações de segurança e postos de controle de pessoal.

A liderança da Chechênia descobriu que as mulheres são tão eficazes como assassinas, que são usadas ​​com mais frequência que os homens. As equipes de segurança dos Jogos Olímpicos de Sochi foram fortemente focadas em rastrear as chamadas “viúvas negras”, cujos homens tinham morrido na luta por uma Chechênia independente.

Depois de ter sido inspirada por tantas mulheres, outras estão tomando o seu lugar. Incluindo alunas que iriam imitar a adolescente suicida palestina Ayat al-Akhras.

No mês fevereiro, os restos mortais de Ayat al-Akhras foram devolvidos pelas autoridades israelenses para sua família, na Cisjordânia, após apelos persistentes de grupos de direitos humanos. Depois de 12 anos, sua família finalmente foi capaz de proporcionar à sua filha um funeral apropriado.

© 2014, Newsweek
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