Na esquina da Penha

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Cigarro aceso, aquela tragada sem pressa, olhando o mundo à volta, buscando no passar das poucas pessoas um incentivo para continuar ali, parada, prostrada como a permitir o tempo correr, na perspectiva que seus próprios ponteiros deixem-na partir. Está velha, nem sabe por que continua na vida, e não acha isso em sentido figurado não, já até pensou em desistir e se atirar da ponte da rua Quinze. Faz, como a brincar, círculos de fumaça e despeja seu riso solto e desdentado pelas vielas do centro. Fuma um atrás do outro, os cigarros a consomem. Vai, naquele andar sem mexer-se, tropeçando em fantasmas e lembranças.

Passa um homem – gordo, a barriga transpondo barreiras e avançando mais que o corpo, cabelo engomado, os olhos verdes e cansados, ela tem certeza que já o atendeu. O rosto familiar, busca nas memórias, naquele conjunto de lembranças que não foram afetados pelas bebedeiras e drogas. Era muito jovem, deve ter sido o primeiro. Dirceu. Sim, Dirceu o nome, tem certeza, depois virou pastor, era parente de deputado, essas coisas chiques, embora o deputado não o tenha arrastado para nenhum gabinete.

Queria mais era mantê-lo longe. Passa mais um, outro, de carro, a pé, ela conhece a todos. Mas Dirceu – Rossi, o sobrenome- mexeu com suas lembranças. Ela o persegue pelo centro, passa pela catedral, vira a esquina, ela atrás.

Foi parar na rua por causa do tal deputado. Ele a tirou de uma cidadezinha, prometeu-lhe casa, comida e nada. Ficou foi na rua da amargura. Dirceu que a convenceu a abrir oficio, estabelecer-se na Rua da Penha, botar pernas cruzadas depois das sete na esquina e fazer carteira de clientes. Começaria por ele. E agora ali, à sua frente! Já foi bonito? Não, ela busca no tempo um indício, mas não. Não era gordo, mas vinte anos de excessos mexem com qualquer um.

– Ei, ei- foi correndo atrás dele como a procurar o passado.

Marcelo Adifa

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