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Na fila da Imigração

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A fila anda lenta, parece que hoje a exigência está maior. Por causa dessa onda de atentados, talvez. As perícias são sem simpatia nem curiosidade. Por que, em vez de “Quanto tempo pretende ficar?” ou “Possui emprego fixo?” não perguntam se vamos dormir até mais tarde, arriscando-nos a perder o café da manhã no hotel, ou se com mexilhões preferimos vinho branco ou rosé. Isso revelaria tão mais nossa identidade e reais intenções. Mas não, nenhum deles tem cara de quem quer saber essas coisas.

A fila avança. As expressões são tensas, apreensivas, mesmo de quem está com a documentação em ordem, traz um salvo-conduto da ONU, é sósia de um Nobel da Paz ou leva uma carta de recomendação do Papa com um P.S. dizendo que o espera sem demora para jogar biriba.

Aquele ali, assobiando, está é fingindo naturalidade. Por que aquela moça traz a bolsa agarrada ao peito? Sei não, hein. Francamente, aquele cidadão com aquela peruca, eu deteria. E aquele casal, com o bebê chorando: evidente que a criança não é deles, foi raptada no Shopping na noite anterior, está ali só para formar a imagem de um casal normal e confiável. O velho truque do bebê.

Não olhe para o chão, para o teto, o relógio – cada espiadela flagrada pelo oficial renderá mais doze minutos de interrogatório. E nunca, jamais, por nada nesse mundo, tente ser íntimo ou engraçado com o sujeito.

O alto-falante diz algo que parece ser de extrema importância e que, se não entendeu, é melhor não dar mais um passo. Deu para ouvir uma palavra com quatro dáblios, um com trema. Seria ótimo se a gente reconhecesse uma palavra do que foi dito. Sabemos a língua, o que não sabemos é por que todos os alto-falantes do mundo são projetados para embaralhar as palavras e jamais serem entendidos.

O voucher com o nome do hotel, deixe à mão. Traga um lenço no bolso do paletó, pega bem. Suma com esse broche da banda heavy metal com letras de inspiração claramente nazistas. Pelo amor de Deus, não é hora de desembrulhar a cocada.

Não se iluda, você vai ser descoberto. Essa cara de pateta desavisado não engana ninguém. Você será confundido com “Hafrid, o Psicopata”. Espirrará bem diante do oficial, sujando o vidro à prova de balas mas não de espirros. Haverá a pergunta “Onde está a autorização expedida pelo Yufmegawffrikgoint?”. Você dirá que nunca ouviu falar dessa sigla e por isso será levado a uma cela por quatro dias, sem contato com advogados.

O guarda, de olho na fila, recebeu treinamento intensivo para, em hipótese alguma, sorrir. Olha para todos como se vislumbrasse uma célula terrorista tentando entrar no país. Sempre muito sério. Tenho certeza de que, quando chega em casa, liga a TV no Pica-Pau ou num filme do Gordo e Magro e se desmancha de rir, ri, ri, ri até chorar, para no dia seguinte estar seco de risadas e retomar essa carranca.

A fila andou, está chegando a sua vez. Muito bem, pessoal. Preparem o alarme, destampem o spray de pimenta, a postos com os pastores-alemães. Você finge naturalidade e sente pena da senhorinha que eles detiveram para averiguação. Talvez seja uma doce terrorista com uma granada escondida no brinquedo para os netos.

Menos de dois minutos, rápido e tranquilo. Você passa sem susto, um carimbo pesado o aprova (tanta tecnologia neste mundo, e a aprovação ainda é dada por um carimbo?).

Mas aí: Não. Um livro salta da minha sacola e se estatela no chão. Posso ouvir as armas engatilhadas.

 

 

 

 

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