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Wednesday, March 3, 2021
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Não teve Carnaval

     A pandemia cancelou a folia. Não teve desfile, trio elétrico, apuração de jurado, mesmo o bloquinho de rua não…

By Redação , in Cássio Zanatta Mundo São Paulo , at 16/02/2021

     A pandemia cancelou a folia. Não teve desfile, trio elétrico, apuração de jurado, mesmo o bloquinho de rua não teve. Esse foi sempre o sonho de tia Ada, que achava o Carnaval uma pouca-vergonha. Dizia que Sodoma e Gomorra eram fichinha perto da libertinagem que tomava conta do Brasil, que este país nunca ia ter jeito enquanto essa devassidão persistisse. Tia Ada talvez fosse assim, um Clóvis Bornay, um Joãozinho Trinta às avessas.

     Claro que teve neguinho que não se conformou. E saiu pra rua, não quis nem saber, se esbaldou, rasgou a fantasia, se aglomerou com outros iguais – uma atitude egoísta, inconsequente, sem dúvida, mas desde quando o Carnaval é consequente? Que deus Momo os (nos) proteja agora.

     Esse silêncio na madrugada é muito estranho. Essa calma, essa sensatez no ar, esquisito. Não passa carro com música, gente cantando na calçada, e as cores são as desbotadas de sempre. No entanto, é fevereiro. Eu perguntei ao mal-me-quer se meu bem ainda me quer, ele então me respondeu que não. Caramba. Será? Ou é só a letra de uma marcha-rancho que ninguém canta mais?

     Não bastasse não ter folia, muita empresa abreviou o feriado: segundona, batente firme. Vamos combinar que aí foi demais. Uma coisa é a pandemia, outra bem diferente é a infâmia. Como encarar a imensidão de março sem esses quatro dias de fevereiro? Onde se viu, afrontar assim as instituições? Cadê a Constituição nessa hora?

     Outra coisa: o fato de oficialmente não haver Carnaval não cancela a liberação da bebida, né? Porque nós, os chegados nos eflúvios alcoólicos, contamos com a data para, na décima latinha de cerveja, vir com a desculpa de que “mas, meu bem, é Carnaval…”. Há limites para o fim das tradições.   

     Restou o bloco do eu sozinho em casa.

     Vamos esperar agora que o pessoal não faça como as quaresmeiras, que deram para desobedecer à Quaresma: em janeiro já estão floridas, apressadas, nem aí com os 40 dias de temperança e ponderação. Vamos colaborar, cumprir com as obrigações, minha gente.

     Só não me digam que, na quarta-feira de cinzas – normal como nunca houve –, não haverá aquele único, doído confete desbotado, caído no asfalto, lembrança do que não foi, perdido, abandonado como parece estar um certo Brasil.

     Há motivo para este final chocho, meio melancólico, o antifinal de uma crônica: não teve Carnaval, ué.

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