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Monday, September 21, 2020
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Nasce o senhor

O que fazia um grilo numa estação de metrô às oito e meia da noite, desafiando os milhares de pés…

By Cássio Zanatta , in Cássio Zanatta News & Trends , at 30/05/2017

O que fazia um grilo numa estação de metrô às oito e meia da noite, desafiando os milhares de pés que pisavam ao seu redor? Não pensei nisso na hora, só me dei conta do prenúncio do juízo final depois. O que queria esse frio em março, esse moço com a camisa do Juventus e mochila do Vasco, do que ria a mulher da bilheteria quando me deu o troco?

No entanto, o inocente se arrastava até a plataforma. Já havia batido o recorde municipal de tropeçar pelo caminho; atribuí isso ao cansaço do dia de trabalho. Talvez (me dou conta agora) fosse meu corpo apelando para não ir adiante. Nem me apercebi das nuvens se assanhando com a reunião dos deuses, pedindo cerveja, preparando-se para o espetáculo.

Esperando na plataforma, chequei as mensagens no celular. Bem que podia ter recebido algo como “Pegue um táxi, você está cansado” ou “Fuja, é uma cilada”. Havia um vídeo fofo de um gatinho fofo deixando um bebê fofo dormir em seu pelo fofo. Mal sabia que havia uma pedrada no meio do caminho.

Foi então que houve.

O trem chegou e, antes que ele parasse, deu tempo de pensar no fiasco da não-aparição do cometa Halley em 1986 (por que isso viria à cabeça naquele exato momento, se não pela iminência de outra decepção?). Assim que a porta se abriu, entrei no vagão já cheio e procurei um espaço onde pudesse respirar. Segurei no corrimão que se prendia ao teto. E então – silêncio no estúdio – ao me ver, a moça se levantou de sua cadeira e disse:

– Por favor, senhor, sente-se. E me ofereceu seu lugar.

Em seguida, em perfeita sincronia, o sinal tocou, a porta se fechou num estrondo, alguém gargalhou do outro lado do vagão – de alguma piada que seu colega lhe contara, de algum vídeo no celular, não fofo mas gozadíssimo, ou o grilo entrou em sua calça e fez cócegas na perna?

O fato, senhor, é que o trem andou, senhor, ganhou velocidade, senhor, e pude ver no reflexo da janela o que 55 anos, 5 meses, 2 dias, algumas horas e outros tantos minutos – que me cansei de fazer conta – fazem com um destemperado senhor.

Atordoado, desci duas plataformas depois da minha. Peguei um táxi que apareceu por milagre (hoje estou meio bíblico) e o motorista perguntou:

– Para onde, amigo?

Juro que se ele tivesse dito “senhor”, eu daria uma traulitada na sua cabeça, assumiria o volante do táxi, sairia cantando pneu, esmagaria todos os grilos pelo caminho e formigas na falta deles, furaria todos os sinais vermelhos até invadir aquela nuvem onde santos de bata e auréola, meio bebinhos, já não riam, apenas choravam abraçados, cantando Lupicínio – coisa que muito os emociona.

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