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No céu da nossa casa

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Minha filha pede que eu a leve à casa de uma amiga, precisam fazer um trabalho de colégio. Pergunto o endereço. Ela diz “rua Bela Cintra, não sei que número”.

A Bela Cintra é uma rua comprida, começa na Estados Unidos, sobe até atravessar a Paulista e desce até o Centro, podia muito bem ser qualquer número entre o 4 e o 2406. Mas na hora em que ela disse o nome da rua, eu soube onde era. Conheço a vida e suas tramoias.

“É aqui”, ela diz, quando paramos na porta do endereço que ela checava no celular. Claro que é, filha, só podia ser. Onde morei dos 2 aos 12 anos, a casa da minha infância. Não existe mais, foi derrubada para virar esse prédio alto, onde sua amiga mora no 6° andar.

Estaciono o carro, ela desce, entra e fico perambulando pela calçada conhecida. Uma coisa linda acontece: fico de costas para o prédio e, desse ponto de vista, nada mudou. Minha visão é a mesma do menino na porta de casa: os mesmos prédios, postes, igual que nem – até o buraco do esgoto que engolia os barquinhos de papel ou palitos de sorvete que a gente fazia descer pela enxurrada quando chovia. A árvore em frente ao nosso portão cresceu, o movimento dos carros cresceu, mas algo está parado no tempo.

Filha, você vai pisar no céu da nossa casa. Acima do quintal onde a gente jogou tanta bola, da cama onde meus pais namoravam, da parede onde eu desenhava, escondido atrás da cortina, da escada de onde um dia caí e rolei vinte degraus. Tanto que eu olhei para cima, para o céu sem estrelas e cor de cobre de São Paulo – procurava você lá no alto, andando por cima de tudo o que a gente era?

E, coisa extraordinária, você poderá ver da janela, lá do alto, os telhados por onde caminhávamos feito gatos sorrateiros; o quadrado da porta da garagem do vizinho, que servia de gol nos jogos da rua; o quintal do prédio ao lado, onde um menino me empurrou numa moita de espinhos sem motivo algum, por pura maldade.

Pode ser que, para você, conhecer o lugar nem signifique muito, apenas mais um prédio entre tantos desta cidade, mas para mim, seu pai bobo, não. Quem sabe do poço do elevador ou do jardim bem cuidado brote algum gibi ou soldadinho que enterrei na terra. Não me parece uma probabilidade mais absurda quanto ser justo aqui o endereço da sua amiga, entre milhares de possibilidades.

O porteiro do prédio me vê ali zanzando e pergunta, talvez desconfiado (coberto de razão, convenhamos), se eu procuro alguém ou se quero subir. Agradeço, não é preciso. O lugar em que eu daria tudo para entrar não existe mais.

Ontem mesmo, pensei tanto nos meus pais. Em algum lugar de um céu com estrelas, e não cor de cobre, eles olham com orgulho a neta andar acima de tudo o que viveram. Talvez tenham mexido alguns pauzinhos para que isso acontecesse, fizeram questão de que ela conhecesse o lugar.

Olho para o alto. Lá está minha filha, andando sob o céu da nossa casa. É das filhas essas capacidades de anjos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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