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No meu canto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estou sossegado no meu canto. Quero apenas saber deste vento que passa entre as duas jabuticabeiras, vencendo entre elas a pitangueira que, como um goleiro batido entre as traves, não conseguiu deter o impulso. Fosse tempo de pitanga, eu me levantaria e iria colher as bem vermelhas. Mas nem isso é, nem de pitanga, nem de jabuticaba. Só do vento que tanto entende de arrepio. Não reclamo, estou bem aqui, outra coisa não quero, estou sossegado no meu canto.

Não quero saber de ter ideias, fazer a barba, expulsar a lagartixa do quarto e pensar que não liguei para fulano desejando feliz aniversário. Estou entretido demais cuidando do meu canto, não quero me transportar para onde não quero estar. Se tocar o telefone, não vou atender; se o jogo começar, não vou assistir; se a visita chegar, digam que não estou – não é que eu a queira mal ou não esteja nem aí, é que eu estou bem, aqui.

Não saio nem que a vaca tussa, que a galinha espirre, que o lagarto plante bananeira, que o pernilongo toque uma sonata de Haydn.

Para me fazer sair daqui seria preciso alguma aparição, de preferência, de tucano. Cheiro de bolo de chuva, é capaz. Correição de formiga. Talvez um realejo da sorte, mas só se o periquito me tirar um bilhete amarelo desbotado, que garanta que eu possa ficar no meu canto. Um bando de cachorros de rua correndo atrás de uma tropa de cavalos. Campainha é que não, quem toca campainha é porque não é de casa, é visita e vide o segundo parágrafo.

O carro de som que passa, anunciando no último volume as ofertas da loja de eletrodomésticos, tenta bravamente, esbraveja, esperneia, mas não vai me fazer sair daqui. As coisas são como são, não adianta o alvoroço. Ele só contribui para a decisão de ficar como estou. Além do mais, não tenho precisão de rádio-relógio, batedeira ou ventilador, o vento já está bom.

Sei que o desassossego logo virá. Alguém vai telefonar, será preciso ir ao dentista, fazer imposto de renda, alguma decisão deverá ser tomada, o que fica imensamente difícil sem broa. Mas serei obrigado, alguém vai dizer: “Vagabundagem, Deus castiga.”

Como se ninguém soubesse que, no sétimo dia, depois de ter criado o aminoácido, a pitanga, a marola e o dedão do pé, Deus criou a rede e pediu uma limonada de limão-galego (criara dois dias antes). Está na Bíblia. E se não está, vagabundo era o profeta que não escreveu essa importante passagem, que explicaria e daria utilidade – quem sabe, santidade – ao fato de que eu só quero ficar no meu canto.

Mas o que estou vendo ali: é miragem, milagre ou é mesmo uma pitanga vermelha? Descobri antes dos passarinhos? Gente! Alguém pega para mim?

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