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Wednesday, July 15, 2020
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Notícias do Mar

By Redação , in Cássio Zanatta News & Trends , at 03/03/2020 Tags:

 Trago notícias do mar. Quem me põem a par são as ondas. Cada uma que chega tem sua versão, quando não diverge inteiramente da que há pouco quebrou. Os acontecidos, quando não as fofocas, elas trazem das profundezas, espalhadas pelos cardumes, divulgados pela maré, todos influenciadas pela opinião da lua.

 As praias têm voz, uma diferente da outra. Aquela fala alto, em estrondos impacientes, como tio Toni costumava estourar com a gente. Chega a babar de doida nas espumas. As praias do Ceará, vocês sabem, exigem ouvidos treinados, porque o que grita é o vento soberano dos verdes mares, que conta lembranças para os coqueiros vergarem. Outras sussurram: trazem segredos, segredos muito sérios, que os homens não podem saber. Por isso falam baixinho, nem a areia ouve direito. 
 Às vezes o mar não quer conversa. As ondas nem aparecem para prosear. Vira um lagoão calmo, um espelho sem fim que, nos dias bonitos, reflete o céu sem nuvem. Algo o aborreceu. Algum petroleiro que vazou, a absurda existência de uma ilha de sacos plásticos. O homem é um assunto que aborrece o mar. 
 Só os homens que saem para a pescaria ele respeita. Em geral, sobem em canoas toscas, frágeis, pintadas de cores que a maresia acha cafonas e rápido apaga. Mas no nome do barco, de respeito, ela não mexe. 
 Muita gente morre no mar, o que entristece gente e também o mar, que pede encarecidamente às ondas menos alvoroço e uma ajuda para deixar na beira d’água uma estrela como um pedido de desculpas. 
 O mar sente muito a falta de conversar com Caymmi. 
 Houve ressaca forte, o que encheu a água de galhos e gravetos, que servem para os meninos fazerem desenhos e cócegas na areia. As águas disseram advertências, que não gostariam de invadir nossas orlas, tão bonitas. E o homem segue surdo, invadindo, destruindo, mudando a maré do mundo.
 Lá vai uma vela deslizando no mar. Branca e lisa, como pele de moça do Interior. Nas manobras, como na vida, a beleza causa uns volteios perturbadores. Quem vê de longe o barco, vê paz. De perto, o contrário: braços e pernas agitados, pondo força nas manobras urgentes. Para ir adiante, o homem deve ouvir o mar. Seguir seus conselhos, saber do vento, obedecer as águas.
  Feito a garrafa que leva o pedido de socorro de um náufrago, procuro um porto onde deixar esta crônica. Não há mapas ou farol. Só uma teimosia tão dura quanto pele curtida de pescador.
 Veja que o mar é melhor conversador do que eu, me afogando nessas imagens bobas. 
 O mar e suas conversas. Onde o sol mais gosta de dormir, ouvindo os sussurros e ajeitando o travesseiro detrás das montanhas.

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