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O capitalismo e o Dalai Lama

em NY Times por

Por Arthur C. Brook

O que Washington, D.C. pode aprender com um monge budista?

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Foto: Reprodução

No começo de 2013, eu viajei com dois colegas à Dharamsala, na Índia, para me encontrar com o Dalai Lama. Sua Santidade mora lá desde que foi expulso de seu Tibete natal pelo governo chinês em 1959. Do seu posto avançado nas encostas dos Himalaias, ele continua a servir como um pastor espiritual para centenas de milhares de pessoas, budistas ou não.

Durante a visita, de manhã cedo, fui convidado a meditar com os monges. Depois de aproximadamente uma hora, comecei a sentir fome, mas trabalhei duro para ignorá-la. Parecia-me que tais preocupações mundanas não tinham lugar no ambiente supraconsciente do monastério.

Incorreto. Nada mais de um minuto depois, uma cesta de pães quentinhos chegou até a fila silenciosa, seguida por um pote de pasta de amendoim com uma única faca. Tomamos café em silêncio, e retomamos a nossa meditação. Isso, logo aprendi, é o resumo de quem é o Dalai Lama: a transcendência e o pragmatismo juntos. A consciência superior e a praticidade literal reunidas em uma só coisa.

Essa mesma dualidade foi exibida em fevereiro quando o Dalai Lama participou de uma reunião de cúpula de dois dias em minha instituição, o American Enterprise Institute. A princípio, a sua visita gerou confusão. Algumas pessoas não podiam imaginar por que ele nos visitaria; como a revista Vanity Fair perguntou em uma manchete, “Por que o Dalai Lama estava saindo com o conservador American Enterprise Institute?”.
No entanto, não havia desarmonia, porque os ensinamentos do Dalai Lama desafiam os pesados rótulos ideológicos. Durante nossas discussões, ele bateu reiteradamente em dois pontos práticos e, no entanto, transcendentais. Primeiro, o seu segredo para que o ser humano prospere é o desenvolvimento de todas as pessoas individuais. Em suas próprias palavras: “Por onde começa um mundo feliz? Começa pelo governo? Não. Pelas Nações Unidas? Não. Começa pela pessoa”.

[blocktext align=”right”]”Por onde começa um mundo feliz? Começa pelo governo? Não. Pelas Nações Unidas? Não. Começa pela pessoa.”[/blocktext]

Porém, sua segunda mensagem deixou bem claro que ele não defende a economia de cada um por si. Ele insistiu que embora a livre iniciativa possa ser uma bênção, não havia garantia disso. Os mercados são instrumentais, e não essenciais, para a prosperidade humana. Assim como com qualquer ferramenta, usar o capitalismo para o bem exige uma profunda consciência moral. Segundo ele, somente atividades motivadas pelo bem-estar do próximo podiam ser verdadeiramente “construtivas”.Os budistas tibetanos, na verdade, consideram a riqueza como um dos quatro pilares de uma vida feliz, juntamente com a satisfação material, a espiritualidade e a iluminação. O dinheiro em si não é mal. Para o Dalai Lama, a pergunta-chave é se “utilizamos nossas circunstâncias favoráveis, tais como a boa saúde e a riqueza, de maneiras positivas, ajudando o próximo”. Os americanos têm muito a aprender aqui. Os defensores da livre iniciativa devem se lembrar de que a essência moral do sistema não está nem no lucro, nem na eficiência. Está na criação de oportunidades para os indivíduos que mais precisam delas.Historicamente, a livre iniciativa tem feito isso com um impacto surpreendente. Em um estudo extraordinário, Maxim Pinkovskiy do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Xavier Sala-i-Martin da Universidade de Columbia calculam que a percentagem da população mundial que vive com um dólar por dia – considerando a inflação – caiu 80% entre 1970 e 2006. Essa é a maior realização contra a pobreza da história.

No entanto, embora a livre iniciativa continue crescendo globalmente, o seu sucesso pode estar vacilando nos Estados Unidos. De acordo com uma pesquisa do Projeto de Mobilidade Econômica do Centro de Pesquisas Pew, os homens nos seus trinta anos em 2004 estavam ganhando 12 por cento menos em valores reais do que a geração dos seus pais na mesma época de suas vidas. Isso foi antes da crise financeira, da Grande Recessão, e dos anos de políticas federais que fizeram muito pelos ricos e pelas pessoas de influência, mas pouco para elevar a metade menos favorecida.

A solução não está no dúbio engodo da “divisão justa” entre as classes por parte dos políticos. Precisamos juntar uma rede de segurança eficiente e confiável para os pobres com uma análise rígida das barreiras modernas à mobilidade ascendente. Isso significa combater a camaradagem que protege pessoas de influência. Significa retirar crianças pobres das escolas ineficientes que as deixam incapazes de competir. Isso envolve eliminar leis antiquadas que limitam os empreendedores de baixa renda. E isso significa criar soluções reais – não apenas propor distorções do mercado – para pessoas que não conseguem empregos que paguem o bastante para sustentar suas famílias.

Ou seja, Washington precisa ser mais como o Dalai Lama. Sem abandonar os princípios, precisamos de políticas práticas estruturadas na empatia moral. Lidar com essas questões pode ofender os interesses fortemente enraizados, mas isso é irrelevante. É o que precisa ser feito. E o desconforto político temporário não é nada em comparação ao sofrimento que as pessoas vulneráveis suportam todos os dias.

Em um momento em nossa reunião de cúpula, eu me desviei do sofrimento dos pobres e perguntei ao Dalai Lama sobre o desconforto em sua própria vida. “Sua Santidade”, perguntei, “o que lhe faz sofrer?”. Esperava algo altamente citável, talvez sobre a perda da sua terra natal. Em vez disso, ele pensou um momento, folgou levemente sua túnica vermelho-escura, e mais uma vez uniu o útil ao agradável.

“Nesse momento”, ele disse, “Estou com um pouco de calor”.

© 2014 The New York Times.

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