-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

O cronista alienado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Ah, tenha dó: é atentado a bomba no metrô de Madrid, sequestro de avião em Moscou, tiroteio em hospital no centro de Bagdá… Nem precisa ir tão longe: aqui mesmo, um garoto entrou na sua escola e matou oito colegas. A tiros de espingarda, golpes de martelo e facadas. Enquanto ria. Me diga: como é que em meio a isso alguém pode escrever sobre ondas, conchas e ventos?

– Pois é.

– Desculpa, mas é muita alienação. Olha aqui na primeira página: o deputado tal desviou 180 milhões da verba que seria destinada à saúde. Para a saúde! Gente doente esperando três dias na fila e morrendo nas macas improvisadas nos corredores. O sujeito não se contenta em roubar 8 nem 80: é logo 180. É muita falta de humanidade, de vergonha… de tudo. E você falando de nuvem em formato de elefante. Ah, faça o favor.

– Não faz mesmo sentido.

– Veja esta estatística: no Brasil, há 50 mil homicídios por ano. Dá uma média de mais de 100 por dia. Sem estar em guerra ou guerra civil, deve ser o país mais violento do mundo. Escrever sobre isso seria talvez de alguma utilidade, traria quem sabe alguma contribuição. Mas não: é passarinho pra cá, paçoca pra lá… francamente.

– Tem toda razão.

– Acorde: importante hoje é falar de perseguição policial, é filho que mata pai e mãe para ficar com a herança, o serial killer de Belfort Roxo, violência, desastre, sangue sobre sangue. Ou a corrupção se esgueirando por todas as frestas. Não essas baboseiras que você escreve sobre espuma, estrelas e canções obscuras da Bossa Nova.

– Verdade.

– E para onde você olha, é sacanagem. É videozinho de sacanagem, coreografia de sacanagem, sacanagem em todas as poses, de todo jeito, tudo ao alcance de jovens e crianças. Uma sociedade podre, corroída, desabando a olhos nus (e ponha nus nisso). Denunciar, usar sua escrita para sugerir saídas, nem pensar: fica nesse “olha aquele urubu… as paineiras estão em flor… que beleza a alvorada…” Ah, vai catar coquinho.

– Concordo.

– Um escritor de verdade tem que tomar partido, se posicionar, ter voz, exigir, influir, insuflar. Não essa conversinha que não leva a nada, essa coisa gasosa, escorregadia feito bagre ensaboado.

– É.

– É, mas e aí? Vai dizer do que realmente importa? Ou continuar insistindo nessas melosidades, a falar sozinho? Vai protestar contra esta vergonha de governo que a cada dia fala ou faz barbaridades, vai lutar de algum jeito pelo país, as pessoas, o censo, o PIB, o escambau, escrever a sério ou vai continuar nessa miopia, fingindo que não vê nada disso e que mora em outro mundo?

– Não, é que…

– Que o quê?!

– É que eu não sei escrever de outro jeito. Já tentei. Mas não sei. Não sei. É isso.

 

 

loading...
Tags:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

*

Últimos de Cássio Zanatta

O sinal

Da janela Tom via o Corcovado e o Redentor. Eu, menos sortudo,

Você me traiu

Como pôde? Diga, como pôde fazer isso comigo? Vinte e um anos

A Terra é cinza

– A Terra é verde! Revelou ao mundo Yuri Gagarin, há quase
Voltar p/ Capa