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O dono da área – João Coca

O dono da área – João Coca Este é mais um causo venéreo, me contado por um dos protagonistas. Mais…

By Redação , in Coluna , at 07/02/2014 Tags:

Gui

O dono da área – João Coca

Este é mais um causo venéreo, me contado por um dos protagonistas. Mais um artista do futebol.

Pela primeira vez em muitos anos, o Nacional não tinha um começo de torneio tão promissor. 4 vitórias e 1 empate. 15 gols a favor e 4 contra. Melhor defesa, melhor ataque e o artilheiro do campeonato.

Os jogadores andavam pela cidade como verdadeiras celebridades, eram recebidos com palmas, abraços e fotos. Estavam dando mais autógrafos que atores de Hollywood em dia de premier.

Chegou o sexto e mais uma vitória tranquila, 4×1 e mais dois gols do camisa 9, Dé. Agora, mais artilheiro do que nunca.

Animado com a fase, o jogador saiu para comemorar moderadamente à noite, até porque a grana não era lá essas coisas. Sentou em um bar na praça principal da cidade, escolheu uma mesa discreta e pediu uma cerveja.

Logo depois, por coincidência (mais ou menos, porque a cidade também não tem tantos lugares assim, né?), chegou o companheiro de time e zagueiro, João Coca.

João Coca é um zagueiro, 1,88 m, 90kg, joga pelo lado direito do campo, forte no jogo aéreo e no chão, mais precisamente em deixar os atacantes no chão. Mas a sua especialidade, como ele mesmo diz, é marcar os atacantes no olho. Basta um olhar que o atacante resolve cair pelo outro lado. Vigoroso e intimidador em campo, o Coca é um lorde fora dele.

O zagueiro avista o centroavante, quase que escondido no lado esquerdo do bar, abre um grande sorriso, que mais parece um teclado de piano, se aproxima e junta-se ao colega.

O papo corre animado e as 3 cervejas que Dé pretendia tomar, viraram 6, depois 9 e sem perspectiva de parar em 12. João se animou mais ainda e começou a pedir tira-gostos. Primeiro um torresmo com linguiça, depois uma carne de panela com pão. O centroavante, sempre comedido, ainda mais com o seu dinheiro, começou a ficar preocupado com a conta e ao ver que o camisa 4 não iria parar de pedir, chamou-lhe a atenção:

– João, essa conta vai sair cara, não tô com grana pra isso. Ainda não recebi o bicho da vitória e tenho que pagar a prestação do carro novo, que é usado, mas é que novo pra mim.

– Calma Dé, pode deixar que essa eu resolvo – batendo a mão no peito, com a autoridade de um camisa 10 – vamos sair sem pagar nada.

O zagueiro levanta os braços, como se tivesse apontando um impedimento, e chama o dono do bar.

– Seu Carlos, é o seguinte, quero fazer uma aposta com o senhor.

Resistente e sabendo que lá vinha fria, o dono do bar logo foi recusando…

– João, quero saber de aposta não, vocês querem mais alguma coisa ou querem pagar a conta?

– Pera, Seu Carlos, escuta pelo menos… o negócio é o seguinte, o dobro ou nada. Se a gente perder a gente paga o dobro da conta, se ganhar, não paga nada.

Nessa hora João sofreu uma falta debaixo da mesa, com medo de ter que pagar mais do que tinha, Dé acertou lhe um chute na canela, como se quisesse parar a jogada.

E João continuou:

–  O negócio é o seguinte, eu aposto que consigo morder o meu olho.

Intrigado com cena que tentava imaginar, o dono do bar não resistiu e apostou.

O bar inteiro se reuniu em volta da mesa, todo mundo querendo ver a mágica do Coca.

–  Com um sorriso maroto, João surpreende a todos, até ao seu companheiro de time, quando tira o olho esquerdo, que era de vidro, e dá uma dentada nele.

Incrédulo, o dono do bar primeiro se revolta, fala que não pode aceitar, que vai cobrar a conta, que isso foi enganado… mas leva uma vaia maior do que juiz ladrão e acaba aceitando.

Dé se levanta e abraça o zagueiro como se estivesse comemorando um gol. Aproveita que está em pé e no lucro, junta as suas coisas (chaves, carteiras e celulares – todo jogador tem mais de um) e se despede do amigo. Mas João ainda não pediu a saideira e convence o centroavante a ficar para tomar mais uma, por sua conta.

Essa uma, viram duas, três e quando se assusta, Dé já está com mais 6 garrafas de cerveja e duas porções na mesa novamente.

– João, vamos embora, está ficando caro de novo, não vou ter dinheiro pra isso não.

– Calma Jogador, vou ganhar essas também.

Após beber e comer tudo que tinha direito, João Coca novamente acena para o dono do bar que, com raiva, já chega neles com a nova conta em mãos.

– Seu Carlos, vou te dar uma nova chance de recuperar o que perdeu. Vamos apostar de novo. Se eu ganhar não pago essa conta de novo, se eu perder, pago as duas.

Seu Carlos, mais vacinado que gato escaldado, não queria nem saber. Mas antes que saísse de perto, escutou a nova proposta de João.

– Eu aposto que mordo o meu outro olho.

O dono do bar parou na mesma hora e pensou: impossível esse cara ter dois olhos de vidro. Como que ele joga bola? Ele voltou, encarou o Coca nos olhos, o bom e o de vidro, como se o examinasse. E mais certo que oftalmologista que o olho direito era verdadeiro e perfeito, aceitou a proposta.

O bar inteiro se reuniu novamente, seu Carlos pediu silêncio. Dé, o centroavante, não sabia o que estava por vir, mas confiou no amigo tão quanto confiava nele em campo.

João Coca se prepara, coça o olho bom. Olha para o Seu Carlos e aponta como se quisesse falar: é nesse, né? E sorri mostrando todos os seus dentes, brancos como um teclado.

Ele coloca a mão na boca, tira os dentes, ou melhor a dentadura de cima e embaixo, e a leva até o olho, fazendo o movimento de mordida.

– Tá mordido, Seu Carlos. Agora a saideira, por favor.

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Guilherme Lemos. Mineiro, marido, dono da Berê, cruzeirense, publicitário e fã de futebol. Mais ou menos nessa ordem. Ah, eu ainda aprendo a surfar. © 2014.

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