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Friday, June 5, 2020
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O filme da vida

Reza a lenda que, quando a gente bate as botas, embora não use botas há anos, vai para a cucuia,…

By Cássio Zanatta , in Cássio Zanatta News & Trends , at 24/01/2017 Tags:

Reza a lenda que, quando a gente bate as botas, embora não use botas há anos, vai para a cucuia, mesmo não sabendo se fica para os lados de Guaxupé, abotoa o paletó de madeira, mesmo achando a vestimenta e a expressão de gosto duvidoso, enfim, dizem que, quando chega nossa hora, a gente revê o filme da vida, com os melhores momentos. Meio assim, um “Vale a Pena Ver de Novo” com as coisas que valeram mesmo a pena.

Imagino a cena. Eu, Deus, meu anjo da guarda, alguns queridos que se foram, numa sessão reservada. Haverá Frumello na bomboniére? Deus faz barulho comendo pipoca? Se der vontade de ir ao banheiro no meio da seção, na volta vai ter querubim lanterninha para nos indicar o lugar? Será permitido fumar no cinema? – mal não há de fazer, já que, como dissemos no parágrafo um, a coisa já foi para o beleléu.

Quem é o Diretor do filme? Posso escolher as cenas? Posso cortar as mais constrangedoras? Será uma ficção ou um documentário tipo “É Tudo Verdade”? Se as cenas forem muito embaraçosas, posso gritar “Fogo!”, fazer todo mundo sair correndo da sala e me safar do vexame?

Será que vai passar aquele vergonhoso tombo do cavalo no sítio do amigo? A viagem para Marataízes, onde a gente passou três dias debaixo de chuva e o único de sol dentro da oficina, consertando o Chevette? Aquele concurso de batida na Bahia em que eu fiquei em sexto lugar e só havia seis concorrentes? Aquela festa em que eu entrei de penetra e, para ser simpático, perguntei as horas à dona da casa e ela respondeu “Hora de ir embora.”? O tapa, a diarréia, a briga, o fora, a brochada?

Só espero que o sujeito dos efeitos sonoros não comente a cena com um “toinhoinhoinhoim” ou aquele “quenquenquenqueim”. Desnecessário, seu Diretor.

O pessoal vai aplaudir quando eu der o beijo que aquela menina não esperava? Vai sentir a mesma vergonha naquele gol facinho, sem goleiro, que eu quis enfeitar e perdi no campeonato do Colégio? Vai ter a casa de madeira em cima da árvore? Os dois Carnavais em Olinda, lá estarão? Tomara, a trilha sonora e o casting ganhariam muito.

Se o filme virar série, dividida em capítulos, eu gostaria que o primeiro fosse sobre a véspera da minha ida de mochila para a Europa, quando meus amigos me deram uma festa de despedida, e em que eu conheci Beatriz. Pulo a parte em que acabamos todos sentados no meio-fio em frente ao Bar do Alemão, o garçom Sinval nos trazendo pão com ovo, para que a gente chegasse vivo em casa?

Seria bacana ver minha cara nos dias em que nasceram Maria e Pedro. Devo aparecer como um canastrão, assustado com o papel e sem ter decorado direito as falas, mistura de O Grande Imperador, Pateta no Espaço e Um Convidado Bem Trapalhão.

Que classificação o bonequinho de O Globo daria ao filme? Aplaudiria de pé ou se afundaria de tédio na poltrona? Se o emprego que eu larguei, mandando o chefe passear, não estiver no filme, chamo a imprensa e digo que é sacanagem do Produtor. Se faltarem as cenas de Tiradentes, juro que me levanto, vou embora e exijo o ingresso de volta.

Na boa, Altíssimo, sabedor de todos os traillers, curtas e longas, eu não ficaria chateado se, em vez do filme da minha vida, a gente assistisse a O Poderoso Chefão. O primeiro e o segundo, que são uma coisa, o terceiro não carece.

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