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O Golpe do Acarajé

em Incontrolável por

Turista do sudeste em praia nordestina. Sol, calor, cerveja… mar! Saindo deste, percebe a barraquinha do acarajé numa sombra de cajueiro disfarçadamente bem localizada – com aquela areia quente, certamente ali embaixo seria um oásis.

O turista vestiu o chinelo e fez a breve caminhada:

– Baiana, bom dia!! Esse acarajé como é que está hoje?? – perguntou sorrindo.

– Você está diferente hoje, meu filho. Mudou dos anos passados – sorriu de volta uma senhora toda vestida de branco. Pele negra, corpo magro, feições suaves e cabelos já grisalhos.

– Não era eu não. É minha primeira vez nesta praia.

– Mas todo mundo muda com o passar dos anos, meu filho. Não se preocupe. Só o  meu acarajé que é o mesmo tem mais de cinqüenta anos. E nunca tive muita reclamação não.

O turista, levanta o Ray-Ban dos olhos apoiando-o na cabeça:

– Faz um para eu comer então, por favor?

Conversam amistosamente enquanto ela frita o bolinho de feijão e discutem a quantidade de pimenta que mais iria satisfazer o paladar do turista. Estava delicioso! Nada mais certeiro do que ingredientes frescos e um bom tempero.

O turista paga os dez reais da iguaria, estende a mão para a baiana e com um sorriso no rosto ela finaliza: “acho que você ainda vai voltar…”

Não demorou nada. Dez minutos depois ele encontra um amigo na praia e relata a delícia local que acabou de comer, bem ali na sombra do cajueiro. O sorriso do amigo precedeu ao comentário: “putz, adoro acarajé!”

– Olha baiana! – diz efusivamente o turista ao leva-lo até a barraca da acarajé. – trouxe um amigo para provar da sua iguaria legítima e saborosa!

– Que bom, sejam muito bem vindos! Adoro quando os fregueses voltam…

– Vou ganhar um acarajé de presente por ter trago o amigo, baiana? – Provocou o turista com o mesmo sorriso no rosto.

A baiana nada disse. Apenas cortou mais um bolinho de feijão ao meio e preparou mais uma deliciosa iguaria ao turista-pidão.

O amigo também elogiou os cinqüenta anos da legitimidade baiana e estendeu uma nota também de cinqüenta reais. Ela foi interrompida enquanto tentava devolver duas notas de vinte como troco:

– Espera! Pode cobrar o dele aqui também.

Novamente a baiana permaneceu calada. Fingiu que não ouviu. Apenas virou-se para o turista e o fragou com um sorriso aberto e fraterno, que claramente contrastava com o seu olhar cansado.

– Não!! Deixa que eu pago!! – afirmou decidido pois era inconcebível para o rapaz “extorquir” dez reais de uma senhora que estava a cinqüenta anos naquela sombra de cajueiro, trazendo sabor e qualidade para os visitantes.

Não foi necessário nenhum troco sequer. Enquanto o turista sacava a nota de dez reais do bolso e entregava à baiana, ela também se entregou: “sabia que um moço alto como você não ficaria satisfeito com um acarajé só.” Manobra incomparável da baiana. Inteligente e amistosa ela foi subliminarmente sublime. Um verdadeiro cheque mate!

Enquanto caminhava pelas areais quentes da praia, em busca do guarda sol para tomar mais um gole da cerveja que supostamente estaria gelada, ao escutar o funk hit deste verão “Malandramente”, o turista percebeu o golpe perfeito. Era tarde demais. Fora habilmente dissimulado para consumir o segundo acarajé – via a clássica essência baiana: sem pressa. Basicamente, na freqüência da vítima, ela teve “as manha”.

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