O homem por trás da Bitcoin. Matéria na íntegra

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Por Leah McGrath Goodman

Satoshi Nakamoto está no final da sua garagem e parece irritado.

Ele veste uma camiseta azul amarrotada, jeans e meias de ginástica brancas. Não colocou os sapatos como se tivesse saído com pressa de casa. Seu cabelo está bagunçado e parece que não dorme há algumas semanas.

O senhor Nakamoto não age com rebeldia, mas tem lutado há muito tempo – contra a negligência, inclusive – e agora enfrenta uma grave perda.

Dois policiais da Temple City, na Califórnia, do departamento do xerife, observam perplexos. “Então, sobre o que você quer perguntar a este homem?” Um deles me pergunta. “Ele acha que vai ter problemas se conversar com você”.

“Eu não acho que ele tenha problema”, eu disse. “Gostaria de perguntar a ele sobre a Bitcoin. Este homem é Satoshi Nakamoto”.

“O quê?” O policial se recusa. “Esse é o cara que criou a Bitcoin? Parece que ele está vivendo uma vida muito humilde”.

Eu vim aqui para tentar descobrir mais sobre o senhor Nakamoto e sua humilde vida. Parecia um absurdo o homem que inventou a Bitcoin – a moeda digital mais bem sucedida do mundo, com operações de quase 500 milhões de dólares em dias de pico – fosse querer se isolar na casa de sua família em San Gabriel de Los Angeles e deixar uma estimativa de 400 milhões de dólares em Bitcoin. A primeira resposta de Nakamoto quando bati à sua porta foi chamar a polícia. Agora cara a cara, com dois policiais como testemunhas, as respostas de Nakamoto às minhas perguntas sobre a Bitcoin foram cuidadosas, mas reveladora.

Tacitamente reconhecendo o seu papel no projeto Bitcoin, ele olha para baixo e categoricamente se recusa a responder ao que perguntava.

“Eu não estou mais envolvido nisso e não posso discutir sobre isso”, diz ele, descartando as perguntas com um golpe de sua mão esquerda. “Foi entregue a outras pessoas. Eles são os responsáveis ​​por isso agora. Já não tenho mais qualquer ligação.”

Nakamoto recusou a entrevista e a polícia deixou claro que a nossa conversa tinha acabado ali.

Mas uma investigação de dois meses, além de entrevistas com as pessoas mais próximas a Nakamoto e outras com as quais ele trabalhava no projeto da Bitcoin revelam os mitos que cercam a criptomoeda mais famosa do mundo. E os fatos são muito mais estranhos do que a ficção.

Longe de encontrar um garoto prodígio de Tóquio com o nome Satoshi Nakamoto, como uma cifra ou pseudônimo, a trilha levou a Newsweek até um homem japonês de 64 anos de idade, cujo nome realmente é Satoshi Nakamoto. Ele é alguém que cultiva um hobby pelo ferromodelismo e sua carreira é envolta em segredo, por ter feito trabalhos confidenciais para grandes corporações e também para as forças armadas dos EUA.

De pé na minha frente, com os olhos baixos, parecia ser o pai da Bitcoin.

Nem mesmo sua família sabia.

Existem vários Satoshi Nakamotos  na América do Norte – mortos e vivos – incluindo um designer de moda masculina da Ralph Lauren, em Nova York, e outro que morreu em Honolulu, em 2008, de acordo com o Social Security Index’s Death Master File. Existe até um do Japão que no LinkedIn afirma ter desenvolvido a Bitcoin. Mas nenhum desses perfis parecem se encaixar com outros detalhes conhecidos, alguns dos quais provaram ser verossímeis.

Há uma chance de “Satoshi Nakamoto” ser um pseudônimo, o que levanta a dúvida: por qual motivo alguém que deseja permanecer no anonimato escolheria um nome tão distinto. Após vasculhar um banco de dados, os quais continha os cartões de registro de cidadãos naturalizados norte-americanos, um Satoshi Nakamoto apareceu. Até pesquisar seus registros no Arquivo Nacional e realizar muitas entrevistas, uma imagem coesa começou a tomar forma.

Duas semanas antes do nosso encontro em Temple City, troquei um e-mail com Satoshi Nakamoto discutindo o interesse em atualizar e modificar os trens de modelo a vapor com tecnologias de desenho assistidos por computador. Consegui seu e-mail através de uma empresa onde ele costuma comprar trens.

Ele compra peças de trem do Japão e da Inglaterra desde que era adolescente. Formou-se em Física pela Universidade Politécnica do Estado da Califórnia, em Pomona. Mas ao contrário de seus irmãos, sua carreira é muito difícil de rastrear.

Nakamoto deixou de responder os e-mails que eu lhe enviava imediatamente depois que comecei a perguntar sobre a Bitcoin, no final de fevereiro. Antes disso, também perguntei sobre sua experiência profissional, uma parte pouco documentada no registro público. Só recebi respostas evasivas. Quando ele perguntou sobre o meu passado, eu lhe disse que ficaria feliz em contá-lo pelo telefone e te liguei para me apresentar. Enquanto não obtive resposta, pedi ao seu filho mais velho, Eric Nakamoto, 31 anos, se poderia tentar fazer seu pai falar sobre a Bitcoin. A mensagem voltou, ele não o faria. As tentativas através de outros membros da família também falharam.

Depois disso, Nakamoto desconsiderou os meus pedidos para falar por telefone e não retornou as ligações. No dia em que cheguei em sua modesta casa, o seu Toyota Corolla CE prata estava estacionado na entrada da garagem, mas ele não me atendeu nem no portão.

Em um momento, ele espiou, olhando pela fresta da porta e fez contato visual por alguns instantes. E então desapareceu. Essa foi a única vez que o vi antes dos policiais chegarem.

“Você quer saber sobre o meu incrível irmão físico?” Diz Arthur Nakamoto, o irmão mais novo de Satoshi Nakamoto, diretor de garantia de qualidade na Wavestream Corp, um fabricante de amplificadores de frequência de rádio em San Dimas, na Califórnia.

“Ele é um homem brilhante. Eu sou apenas um humilde engenheiro. Ele é muito focado e eclético em seu modo de pensar. Esperto, inteligente, domina a Matemática, Engenharia e os computadores. O que você pedir, ele faz”.

Mas também era muito cauteloso.

“Meu irmão é um idiota. O que você não sabe é que ele já trabalhou até em material confidencial. Sua vida foi um completo vazio por um tempo. Você não vai ser capaz de chegar até ele. Ele vai negar tudo. Nunca vai admitir ter projetado a Bitcoin”.

E com isso, o irmão de Nakamoto desligou.

Suas observações sugeriram que eu estava no caminho certo, mas isso não era o suficiente. Enquanto seu irmão sugeriu que Nakamoto fosse capaz de desenvolver a Bitcoin, eu não tinha certeza que ele sabia do assunto. Afinal, Arthur Nakamoto comentou que eles não se davam bem e não se falavam com frequência.

Eu simplesmente precisava falar com Satoshi Nakamoto pessoalmente.

A Bitcoin é uma moeda que vive no mundo dos códigos de computadores e pode ser enviada em qualquer lugar do mundo sem taxas de câmbio, como os bancos, e é armazenada em um celular ou um disco rígido para ser usada novamente. Já que a moeda está em um código, ela também pode ser perdida quando um disco rígido falhar, ou roubada se alguém acessar as chaves do código.

“Toda a empolgação por parte dos nerds sobre a Bitcoin é que ela é a maneira mais eficiente de fazer transações financeiras”, diz o cientista-chefe da Bitcoin, Gavin Andresen. Ele reconhece que a facilidade de uso da Bitcoin também pode facilitar o roubo e que é mais segura quando armazenada em um cofre ou em um disco rígido que não está conectado à Internet. “Qualquer um que tenta enviar dinheiro ao exterior pode ver como é muito mais fácil uma transação internacional com a Bitcoin. É tão fácil como enviar um e-mail”.

Mesmo assim, a Bitcoin é vulnerável ao roubo em massa, fraude e escândalo, uma vez que o preço de cada Bitcoin passou de mais de 1.200 dólares no ano passado para ínfimos 130 dólares no final de fevereiro deste ano.

A moeda tem atraído a atenção do Senado dos EUA, do Departamento de Segurança Interna, da Reserva Federal, Receita Federal, além da Rede de Execução de Crimes Financeiros do Departamento do Tesouro.

“Hoje o FBI é um dos maiores detentores de Bitcoins do mundo”, diz Andresen.

“Trabalhar no código do núcleo da Bitcoin é realmente assustador, na verdade, porque se você destruir algo, pode quebrar esse enorme projeto de 8 bilhões de dólares”, diz Andresen. “Foi o que aconteceu no passado”.

Por quase um ano, o cientista-chefe trocou mensagem com o fundador da Bitcoin algumas vezes por semana, muitas vezes dedicando suas 40 horas semanais para refinar o código Bitcoin. Ao longo de seus contatos, a maneira de se esquivar é a marca registrada de Nakamoto, diz o cientista-chefe.

Na verdade, ele nunca sequer ouviu a voz de Nakamoto, porque o fundador do Bitcoin não se comunica por telefone. Suas interações, diz ele, sempre ocorreram “por e-mail ou mensagem privada no fórum Bitcointalk“, onde os entusiastas se encontram online.

“Ele era o tipo de pessoa que, se você tivesse cometido um erro bobo, ele poderia chamá-lo de idiota e nunca mais falar com você de novo”, diz Andresen. “Naquela época, não estava claro que a criação da Bitcoin poderia ser uma coisa legal. Ele fez um grande esforço para proteger seu anonimato”.

Nakamoto também ignorou todas as perguntas do Andresen sobre de onde ele era, sua experiência profissional, que outros projetos  tinha trabalhado e se o nome dele era real ou um pseudônimo. “Ele nunca foi de falar muito. Só falava sobre código”, explica Andresen.

Andresen, um australiano formado em Ciência da Computação em Princeton, se tornou parte da equipe de programadores internacionais e de outros que trabalhavam como voluntários para aperfeiçoar o código Bitcoin, após seu lançamento pouco ambicioso em janeiro de 2009.

Após ouvir falar sobre a Bitcoin, em 2010, através de um blog, ele ofereceu ao senhor Nakamoto uma assistência no projeto. Sua mensagem inicial foi: “A Bitcoin é uma idéia brilhante, e eu quero ajudar. O que você precisa?”

Andresen diz que ele não deu muita atenção ao trabalhar para um inventor anônimo. “Eu sou um nerd”, diz ele. “Não me importo se a ideia veio de uma pessoa boa ou má. As ideias permanecem por elas mesmas”.

Outros desenvolvedores foram impulsionados pelo interesse, lucro ou política pessoal, diz ele. Mas quase todos ficaram intrigados com a promessa de uma moeda digital acessível a qualquer pessoa no mundo que pudesse ignorar os bancos centrais. Neste sentido, o lançamento da Bitcoin não poderia ter sido em hora melhor.

Em 2008, pouco antes do pontapé oficial da moeda, uma proposta de nove páginas encontrou seu caminho na Internet com o nome e endereço de email de Satoshi Nakamoto. “Dinheiro eletrônico, permitindo que pagamentos on-line fossem enviados diretamente entre o mesmo sistema, sem passar por uma instituição financeira”, com transações visíveis a todos.

O golpe de mestre estava substituindo o papel dos bancos como intermediários de confiança pelos usuários Bitcoin, que atuariam como sentinelas para a integridade do sistema, verificando as transações usando seu poder de computação em troca de moeda.

A produção da Bitcoin é projetada para se mover em um ritmo cuidadosamente calibrado para aumentar o valor e manter a inflação, reduzindo pela metade a sua quantidade a cada quatro anos, e é projetada para parar de proliferar quando as Bitcoins atingirem um total de 21 milhões em 2140. As Bitcoins podem ser divididas por até oito casas decimais, e as menores unidades são chamadas “satoshis”.

“Eu tenho a impressão de que Satoshi estava realmente fazendo isso por razões políticas”, disse Andresen, que é pago em Bitcoins – como outros desenvolvedores do núcleo de trabalho do Vale do Silício – pela Fundação Bitcoin, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para padronizar a moeda.

Ele não gosta do sistema que temos hoje e queria um diferente, mais igualitário. “Ele não gostou da ideia que os bancos e banqueiros estão ficando ricos só porque eles detêm as chaves”, conta Andresen.

Digitando algumas teclas contribui para os primeiros investidores da Bitcoin se tornarem ricos além da medida. “Eu fiz um pequeno investimento em Bitcoin e é realmente o suficiente para me aposentar hoje se eu quisesse. No geral, eu fiz cerca de 800 dólares por centavo investido. É uma loucura”, conta Adresen.

Uma das primeiras pessoas a começar a trabalhar com o fundador do Bitcoin em 2009 foi Martti Malmi, 25 anos, um programador de Helsinki, que investiu em Bitcoins. “Eu as vendi em 2011 e comprei um bom apartamento”, diz ele. “Hoje, eu poderia ter comprado 100 apartamentos”.

A comunicação com o fundador da Bitcoin foi se tornando menos frequente no início de 2011. Nakamoto parou de postar alterações no código Bitcoin e ignorou as conversas no fórum Bitcoin.

Andresen não estava preparado, no entanto, para a reação de Satoshi Nakamoto por uma troca de e-mail entre eles em 26 de abril de 2011.

“Eu espero que você não continue falando que sou uma figura sombria e misteriosa”, Nakamoto escreveu para Andresen, que, por sua vez respondeu: “Sim, eu também não estou feliz com o tom de pirata maluco por dinheiro”.

Então ele contou a Nakamoto que havia aceitado o convite para falar na sede da Agência Central de Inteligência. “Espero que, ao falar diretamente com eles e, mais importante, ouvir suas perguntas/ dúvidas, eles pensarão na Bitcoin do jeito que eu faço – como um dinheiro mais eficiente, menos sujeito aos caprichos políticos”, disse ele. “Não como uma ferramenta ‘mor’ do mercado negro que será usada por anarquistas para derrubar o sistema”.

A partir desse momento, Satoshi Nakamoto parou de responder aos e-mails e sumiu do mapa.

A família de Nakamoto o descreveu como extremamente inteligente, mal-humorado e obsessivamente reservado, um homem de poucas palavras que não se comunica pelo telefone, e raramente por e-mails. Na maior parte de sua vida tem se preocupado com as duas coisas pelas quais a Bitcoin se tornou conhecida agora: dinheiro e sigilo.

Nos últimos 40 anos, Satoshi Nakamoto não usou seu nome de nascimento em sua vida diária. Aos 23 anos, depois de se formar, mudou seu nome para “Dorian Prentice Satoshi Nakamoto”, de acordo com registros arquivados no Tribunal Distrital dos EUA de Los Angeles, em 1973. Desde então, ele não usou o nome Satoshi, mas assina como “Dorian S. Nakamoto”.

Descendente de Samurai e filho de um sacerdote budista, Nakamoto nasceu em julho de 1949 na cidade de Beppu, Japão, onde cresceu pobre – como na tradição budista – por sua mãe, Akiko. Em 1959, depois de um divórcio e novo casamento, ela imigrou para a Califórnia, levando seus três filhos com ela. Agora, aos 93 anos de idade, vive com Nakamoto em Temple City.

Nakamoto não se dava bem com o padrasto, mas a sua aptidão para a matemática e ciência era evidente desde cedo, diz Arthur, que também observa: “Ele é inconstante e tem passatempos muito estranhos”.

Logo após se formar na faculdade, Nakamoto foi trabalhar no departamento de defesa e comunicação eletrônica, na Hughes Aircraft, no sul da Califórnia. “Isso foi apenas o começo”, diz Arthur, que também trabalhou na Hughes. “Ele é a única pessoa que eu conheço que foi em uma entrevista de emprego e disse ao entrevistador que era um idiota – e depois provar isso”.

Nakamoto tem seis filhos. O primeiro, filho de seu primeiro casamento em 1980, é Eric Nakamoto, designer de animação e gráficos 3D, na Filadélfia. Seus próximos cinco filhos ficaram com sua segunda esposa, Grace Mitchell, 56 anos, que vive em Audubon, Nova Jersey, a qual conheceu Nakamoto em uma igreja em meados da década de 1980. Ela se lembra de que ele veio para a costa leste depois de deixar a Hughes Aircraft, agora parte da Raytheon, aos 20 anos e depois trabalhou para a Radio Corporation of America, em Camden, Nova Jersey, como engenheiro de sistemas.

“Nós estávamos fazendo projetos eletrônicos de defesa e comunicação para as forças armadas destinados aos aviões e navios de guerra do governo, mas era confidencial, eu realmente não posso falar sobre isso”, confirma David Micha, presidente da empresa agora chamada L-3 Communications.

Mitchell diz que seu marido “não fala muito sobre o seu trabalho” e, por vezes, assumiu projetos militares independentes. Em 1987, o casal mudou-se de volta para a Califórnia, onde Nakamoto trabalhava como engenheiro de computação nas empresas de comunicação e tecnologia em Los Angeles, incluindo o serviço de informações financeiras Quotron Systems Inc., vendida para a Reuters e Nortel Networks, em 1994.

Nakamoto foi demitido duas vezes na década de 1990 e contraiu muitas dívidas, pois hipotecou a casa e não conseguiu honrar os empréstimos, de acordo com Mitchell. Essa experiência, diz a filha mais velha de Nakamoto, Ilene Mitchell, 26, pode ter influência sobre a atitude do pai com os bancos e governo, os quais tomaram a casa onde a família morava.

Um libertário, Nakamoto incentivou sua filha a ser independente, iniciar seu próprio negócio e “não estar sob o controle do governo”, diz ela. “Ele era muito cauteloso com o governo, os impostos e as pessoas que tinham poder”.

Ela também descreve seu pai como um homem que trabalhou todas as horas, de manhã até tarde da noite. “Ele mantinha seu escritório fechado e não queria que nós mexêssemos em seu computador”, lembra ela. “Ele estava sempre antenado com a política e acontecimentos atuais. Ele adorava tecnologias novas e antigas. Ele construiu seus próprios computadores e ficava muito orgulhoso deles”.

Por volta de 2000, Nakamoto e Grace se separaram, embora nunca tenham se divorciado. Eles se mudaram de volta para Nova Jersey com seus cinco filhos e Nakamoto trabalhou como engenheiro de software para a Administração Federal de Aviação, em Nova Jersey, na sequência dos ataques de 11 de setembro fazendo a segurança das comunicações funcionarem, diz Mitchell.

“Foi muito sigiloso”, diz ela. “Ele deixou o emprego em algum momento de 2001 e eu não acho que ele tinha um emprego estável desde então.”

Quando o contrato com a Administração Federal de Aviação terminou, Nakamoto voltou para Temple City, onde durante o resto da década as coisas ficaram nebulosas sobre o tipo de trabalho que ele empreendeu.

Desde que a Bitcoin ganhou destaque, houve uma caça ao real Satoshi Nakamoto. Será que ele agiu sozinho ou estava trabalhando para o governo? A Bitcoin tem sido associada a tudo, desde a Agência de Segurança Nacional ao Fundo Monetário Internacional.

No entanto, em um mundo onde quase todas as grandes inovações do Vale do Silício parecem se envolver em ações judiciais sobre quem pensou nisso primeiro, no caso da Bitcoin, o fundador manteve-se silencioso durante os últimos cinco anos.

“Eu pude ver meu pai fazendo algo brilhante”, diz Ilene Mitchell, que trabalha para Partnerships for Student Achievement, em Beaverton, Oregon. “Mas honestamente não o vi sendo direto sobre isso. Qualquer pessoa normal agiria bem diferente. Mas ele não é totalmente uma pessoa normal”.

O irmão do meio de Nakamoto, Tokuo Nakamoto, que mora perto de seu irmão e mãe, em Duarte, Califórnia, concorda. “Ele é muito meticuloso no que faz, mas tem medo de se expor na mídia, então você terá que desculpá-lo”, diz ele.

As características de Satoshi Nakamoto, o fundador da Bitcoin, que encaixam com Dorian S. Nakamoto, o engenheiro de computação, são numerosas. Aqueles que trabalham mais de perto com o fundador da Bitcoin notaram várias coisas: ele parecia ser mais velho que os outros desenvolvedores e trabalhava sozinho.

“Ele não parecia ser uma pessoa jovem e influenciada por um grande número de pessoas no Vale do Silício”, diz o filândes protegido de Nakamoto, Martti Malmi. Andresen concorda: “o estilo de Satoshi escrever código era old school. Ele usou coisas como notação polonesa reversa”.

Além disso, o código nem sempre foi puro, outro sinal de que Nakamoto não estava trabalhando com uma equipe que teria limpado o código ou simplificando-o.

“Todos aqueles que olhavam para o código praticamente concluíam que era de uma única pessoa”, diz Andresen. “Nós reescrevemos cerca de 70 por cento do código desde o início. Ele não foi escrito com interfaces agradáveis. Era como uma grande bola de pelo. Foi incrivelmente comprimido e bem escrito no nível mais baixo, mas onde as funções se reuniam é bastante confuso.”

A proposta de Satoshi Nakamoto em 2008 também aponta sua idade, com a referência esquisita “espaço em disco” – algo que é mais um problema desde o milênio passado – e citações de pesquisa muito antigas.

O código da Bitcoin é baseado em um protocolo de rede que foi estabelecido há décadas. Seu brilho não é tanto no próprio código, diz Andresen, mas no design, que une funções para alcançar vários objetivos. A pontuação na proposta também é consistente com a forma como Dorian S. Nakamoto escreve, com espaços duplos após períodos e outras peculiaridades de formato.

Existe um debate entre aqueles que afirmam que Nakamoto escreve um “inglês curiosamente impecável” para um japonês, e aqueles que afirmam o contrário.

Em suas correspondências, as quais têm sido amplamente observadas, Satoshi Nakamoto alterna entre grafias britânica e americana. E, dependendo do público, adota um estilo mais formal. Graça Mitchell diz que seu marido faz o mesmo.

O uso do inglês de Dorian S. Nakamoto, diz ela, foi provavelmente influenciado por seu interesse ao longo da vida por colecionar modelos de trens, muitos dos quais eram importados da Inglaterra, quando ele era adolescente, enquanto ele ainda estava aprendendo inglês.

Talvez o paralelo mais convincente entre os dois Nakamotos são seus conjuntos de habilidades profissionais e a carreira. Andresen diz que Satoshi Nakamoto disse a ele sobre o tempo que levou para desenvolver a Bitcoin. “Satoshi disse que tinha trabalhando no projeto da Bitcoin anos antes de ele ter lançado”, diz Andresen. “Eu podia ver o código original, tendo pelo menos dois anos para escrever. Ele fez uma revelação de que havia resolvido algo que ninguém tinha resolvido antes”.

Dos três anos de silêncio de Satoshi Nakamoto, também se encaixam com os problemas de saúde sofridos pelo Dorian S. Nakamoto. Nos últimos anos, segundo a sua família: “Tem sido difícil, porque ele sofreu um acidente vascular cerebral há vários meses e antes estava lutando contra um câncer de próstata”, diz a mulher, que trabalha como enfermeira de cuidados intensivos, em Nova Jersey. “Ele não tem visto seus filhos nos últimos anos.”

Ela não conseguiu ouvir de Nakamoto se ele foi o fundador da Bitcoin. Eric Nakamoto diz que seu pai nega. Tokuo e Arthur Nakamoto acreditam que seu irmão vai deixar a verdade não confirmada.

“Dorian pode apenas ser paranoico”, diz Tokuo . “Eu não posso chegar até ele. Não acho que ele vai responder a qualquer uma dessas perguntas de verdade”.

Claro, nada disso responde a maior questão de todas – o que só Satoshi Nakamoto pode responder: O que o impediu de gastar suas centenas de milhões de dólares de Bitcoin, que colheu quando lançou a moeda anos atrás? De acordo com a sua família, tanto ele – quanto eles – realmente poderiam usar o dinheiro.

Andresen diz que se Nakamoto está tão preocupado com a manutenção de seu anonimato, quanto ele lembra, a resposta pode ser simples: ele não quer participar da loucura da Bitcoin. “Se você sair como o líder da Bitcoin, agora você tem que fazer aparições, apresentações e comentários para a imprensa, as quais realmente não se encaixam com a personalidade de Satoshi”, diz ele. “Ele realmente não quer levar isso adiante. Ele era muito intolerante à incompetência e também percebeu que o projeto iria continuar sem ele”.

Por outro lado, é possível que Nakamoto simplesmente tenha perdido as chaves de segurança para desbloquear suas Bitcoins. Andresen, no entanto, diz que duvida. “Ele era muito disciplinado.”

Por sua parte, Andresen diz que está disposto a respeitar o anonimato de Nakamoto. “Quando os programadores se reúnem, nós não falamos sobre quem Satoshi Nakamoto é”, conta. “Falamos sobre como deveríamos ter investido em mais Bitcoin. Estamos curiosos sobre o assunto, mas, honestamente, nós realmente não nos importamos”.

Sobre a possibilidade de seu pai também ser o pai da Bitcoin, Ilene Mitchell diz que não está surpresa se seu pai optasse em ficar por trás deste empreendimento, especialmente agora que está preocupado com a sua saúde.

“Ele é muito cuidadoso com a interferência do governo em geral”, diz ela. “Quando eu era pequena, tinha um jogo que costumávamos jogar. Ele dizia: ‘Finja que as agências governamentais estão vindo atrás de você, que eu vou me esconder no armário”.

© 2014, Newsweek

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