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O homem vitorioso

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O homem vitorioso chega ao evento confiante. Desce do carro guiado pelo motorista (um homem vitorioso não dirige carros) e é saudado pelos flashes. Uma multidão o cerca mas, a um sinal seu, todos abrem caminho. O pavio que faz explodir o espetáculo é aceso com sua chegada.

Todos querem estar junto a ele, sentir o brilho, pegar emprestado seu sucesso. A todos ele concede um sorriso de certezas (o homem vitorioso sabe disfarçar bem). Não são dentes de quem levou porrada nesta vida ou, se a levou, o dentista fez um bom trabalho. Parece estar sempre de perfil, oferecendo seu lado mais favorável aos fotógrafos.

Antes de entrar, ele corta uma flor do buquê que ornava a entrada e a enfia no bolso do paletó. Deixa o talo lá caído, aleijado, sem entender bulhufas. O homem vitorioso se acha no direito de fazer essas feiúras e assim mesmo é admirado por todos. Deve ser o tal magnetismo pessoal. Ou o pessoal é que é muito bocó.

De repente, há uma hesitação nos convidados. Algo desvia as atenções – uma lâmpada que estourou, um grito de mulher vindo da entrada. Por alguns segundos, o homem vitorioso entra em pânico por não ser glorificado, mas o desespero dura pouco: logo uma mulher de discutível elegância vem lhe pedir uma selfie. Décimos de segundo depois do alívio, ele reassume a expressão de quem guardou uma migalha aos mortais.

Há um microfone instalado no palco. Decerto alguém pedirá que ele diga algumas palavras, a narrativa de suas conquistas. Ele então dirá pouco, pois no caso de se estender será desmascarado, a nulidade do seu pensamento ficará evidente. Brevidade, portanto: sejamos fúteis, mas não burros.

O homem impávido hesita diante do canapé que o garçom lhe oferece. Antes de aceitar seria preciso contar as calorias e não há tempo. Recusa o espumante, é preciso estar sóbrio. A admiração de todos e a inveja de alguns é suficientemente embriagante.

Terminada a noite, o homem vitorioso deixa o evento e nem precisa chamar o carro: este já está à sua espera. Entra, senta-se, ajeita seu troféu pesado no banco de trás (sempre há um troféu) e confirma com o motorista o destino. Antes de partir, um último esforço antes de esvaziar os sorrisos e um tchauzinho para alguns conhecidos. São todos isso: conhecidos. Mesmo os mais babentos.

Pede ao motorista que desligue a música do carro, está cansado. Não fala, não olha a cidade que desfila pelo vidro. Desfaz o nó na gravata como se fosse uma libertação. Confere pelas redes sociais sua glória inquestionável.

Um suspiro.

Ninguém diria que, antes de despencar na cama, o homem vitorioso toma um Toddy batido, preparado por ele mesmo, se desespera por um segundo na banheira cheia de espuma e dorme agarrado ao seu ursinho de pelúcia, curvado feito um feto à espera da tal de vida.

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