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O menino de cabelos brancos

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O menino de cabelos brancos desaprendeu a andar rápido. Desistiu de vez de encarar a balança e tentar combinar as roupas. Prefere espiar as peladas vagabundas na praia (de futebol, necessário esclarecer) e suas discussões seríssimas, e acontece da bola às vezes escapar do jogo e vir em sua direção. Pensa consigo: a bola procura os grandes craques. Conclusão: a idade não atenua a patetice.

O menino de cabelos brancos esquece das coisas ainda mais do que já esquecia. Diz, com detalhes, histórias que não aconteceram com ele. Meia hora de caminhada e a sensação de ter corrido a São Silvestre. Perde o equilíbrio com frequência e deixa cair demais a colher, demais. E colher é um troço incapaz de cair com discrição, chegada num estardalhaço.

Ainda gosta de Tom, Baden e Vinicius, como quando tinha dezoito. Tem os mesmos amigos fiéis, de quarenta anos atrás, embora tenha feito outros pelo caminho. Fez inimigos também e é impressionante como eles perderam a importância.

O menino de cabelos brancos anda se emocionando com frequência, os olhos marejam com as lembranças mais bestas, e se dá conta de que seu pai era assim. Não há motivo: sua mulher é linda, seus filhos são lindos, sua vida é boa ­– ou talvez seja por isso mesmo.

Ainda surge de vez em quando uma espinha no rosto, essa puberdade que não passa, como não passa o medo de aranha, a pretensão de ser lembrado, o horror a anis. E a eterna esperança de encontrar a moitinha de sensitivas.

O menino de cabelos brancos conversa com seus filhos de cabelos escuros e dá a isso uma importância que um dia eles também hão de dar. Os dois têm outro gosto para roupa, música, filme, sorvete e cada dia é um ensinamento.

Tem evitado reuniões e, quando inevitáveis, despreza os gráficos em favor das janelas.

Agora deu para devaneios. Pensou em falar sobre isso em voz alta, quem sabe gritar, mas o ridículo sabe seus limites. Enfim, não deixa de ter sua graça, sonhar com coisa assim, sofrer por coisa assim, que devia acontecer só dos nove aos trinta e sete anos. Além do mais, é uma equação esquisita: quantos mais branco aparece nos cabelos, mais invisível ele fica.

Muito álcool lhe faz mal, café, queijo, mergulhar fundo no mar, na nuvem, na poesia e ter ideias; dormir pouco lhe faz mal, dormir muito não lhe faz bem. Não pode mais comer pastel e isso é triste. Mas sonhar com certos lugares, especialmente os que têm saíra, amora e neblina pela manhã, faz um bem danado.

Ainda conversa com Deus, mas cada vez mais é um Deus pessoal, particular, que ele inventou, não lhe impõe deveres, sacrifícios, releva os  pecados e gosta de prosear debaixo de uma sombra ou nas pedras da praia, os dois sentados, sentindo o respingo nos cabelos, o sal na boca e ouvindo o estouro das ondas.

O menino de cabelos brancos às vezes sou eu, às vezes é outro. Uma hora se reconhece, outras se olha no espelho e leva susto. E a cada ano, soprar as velas no bolo exige mais fôlego.

O menino de cabelos brancos ainda acha tudo muito impressionante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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