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Thursday, November 26, 2020
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O observador de navios

Um dia desses, ainda vou me sentar numa cadeira de praia e acompanhar a saída de um navio. O percurso…

By Redação , in Cássio Zanatta Coluna News & Trends São Paulo , at 27/10/2020

Um dia desses, ainda vou me sentar numa cadeira de praia e acompanhar a saída de um navio. O percurso completo: desde que ele deixa o porto, cheio das imponências, entra lentamente no canal, assume o mar aberto para então ganhar velocidade, e ir diminuindo, diminuindo, até sumir no horizonte.

     Isso pode levar uma hora. Nesse tempo, vou pensar na vida, chupar um sorvete, lembrar de alguns sambas e me arrepender de um punhado de coisas.

     Nem precisa ser um navio de cruzeiro, desses altos e iluminados, com passageiros felicíssimos a acenar para quem fica. Pode ser um de carga, mesmo. Tenho a impressão de que estes fazem menos estardalhaço, são mais lentos, e não tenho pressa.

     Bom seria se, nessa hora, o navio fosse guiado por um prático que houvesse, por exemplo, ganhado na loteria. Ele daria ziguezagues para comemorar, que teriam que ser seguidos pelo navio, e isso seria divertido. Isso, claro, se fosse um cargueiro, contêineres se arrastando pelo convés. Fosse o de cruzeiro, a ideia seria um desastre: imagine o que ia ter de passageiros arrependidos, enjoados logo de saída, possivelmente até houvesse um motim que lançasse o comandante ao mar.

     Os navios não obedecem à mesma pressão pela renovação do design que aflige as lanchas, iates e carros. São iguais há décadas, com pouquíssimas variações, o que justifica as laterais descascadas e as cores esmaecidas. Além disso, têm vida longa, muitos já deram a volta à Terra em milhas suficientes para ter ido à Lua. Divertiram baleias, dispersaram cardumes e passaram muito longe da esperança do náufrago.

     Faço questão é que o navio apite. Apite longamente, uma, duas vezes. Que o som alto ecoe nas montanhas, seja trazido pelas ondas e faça a gente sonhar com alguma viagem que nunca havia passado pela cabeça, como ir a Walvis Bay, na Namíbia. Não sei o que há para fazer por lá, mas imagino que no caminho, de noite, nas noites limpas, o céu seja bastante estrelado.

     Mas estou me adiantando à-toa. Tudo o que peço é uma hora de sossego para observar a partida do navio, já estaria bom. Vou deixar a cadeira na porta de casa de plantão, enfiar uns trocos no bolso e escrever um bilhete avisando a tripulação de casa.

      Ou talvez desista da ideia. Fellini nos ensinou que, na verdade, é impossível acompanhar os navios: eles aparecem e desaparecem sem sentido. São gigantescas miragens, têm nevoeiros próprios. E, ao sumir – sempre somem –, deixam na gente uma vontade incontrolável (ou sou só eu?) de bater palmas.

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