fbpx
Monday, November 30, 2020
-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-


O Olmo e a Gaivota e a sensibilidade feminina

O Olmo e a Gaivota e a sensibilidade feminina Na esquina da Fidalga com a Wisard, voltando da padaria, eu…

By Redação , in Coluna , at 18/12/2015

Roberto

O Olmo e a Gaivota e a sensibilidade feminina

Na esquina da Fidalga com a Wisard, voltando da padaria, eu me deparei pela primeira vez com aquele estêncil manchando a faixa de pedestres dizendo “Rapunzel presa no 5º andar sem elevador cheia de desejos.” Imediatamente me lembrei da página de Facebook de uns amigos chamada “Stencil babaca” – que, descobri agora, fez um post sobre isso – e pensei: lá vem mais uma página hipster-poética em alguma rede social. Ou, quem sabe, é uma ação de guerrilha de alguma marca de… Ué, presa? 5º andar? Cheia de desejos? Só o que me veio à cabeça foi um serviço de entrega de vibrador à domicílio.

Engano meu.

Quer dizer, era uma ação de marketing, sim, com a qual eu iria me deparar outras várias vezes dali pra frente. Porém, era de um filme. E que filme!

O Olmo e a Gaivota é um longa luso-brasileiro que mostra a história de Olivia Corsini e seu marido Serge Nicolai, dois atores de teatro que atuam sempre lado a lado. Logo após saberem que sua trupe foi contratada para uma temporada tão esperada nos Estados Unidos para interpretar “A Gaivota”, de Tchekhov, Olivia descobre que está grávida. De imediato, ela se recusa a deixar o papel principal justamente no momento mais alto da sua carreira, mas é contrariada pelo diretor. O problema toma maiores proporções quando a gravidez se complica e ela é impedida de sair de casa – daí o “presa no 5º andar sem elevador cheia de desejos”.

Sim, é a história de uma gravidez e todos nós sabemos o início e o fim desse acontecimento. Não vá ao cinema esperando grandes reviravoltas, a surpresa do filme não está aí, O Olmo e a Gaivota não é um filme convencional. Pra começar, ele transita entre a ficção e o documentário, pois Olivia e Serge são mesmo Olivia e Serge, e ela não interpreta que está grávida, ela está grávida. O filme também descerra suavemente as cortinas para os bastidores quando, por exemplo, a diretora pede a Olivia que refaça uma determinada cena colocando outra energia. Uma dúvida então paira no ar: o que dali é real? Na verdade, pouco importa. Como diz a frase de abertura de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.”

Ainda que dito tudo isso, a inventividade do filme não se resume à linguagem cinematográfica. Outro fator determinante é a sensibilidade com que as diretoras Petra Costa e Lea Glob tratam o tema: ora de forma delicada, ora crua e cruel. Além da óbvia questão de interromper a carreira da mulher, há outro lado, mais intimista, absolutamente único para cada mulher que carrega dentro de si por nove meses um novo ser. O Olmo e a Gaivota derruba, como poucas obras, a blindagem da beleza etérea, paradisíaca e quase onipresente em torno da gravidez. Ele permite a emersão do desgosto, do incômodo, da negação, em últimos termos, da sinceridade despudorada. Como no momento em que Olivia assume ter medo da solidão e diz que não quer transferir essa responsabilidade para o filho.

Sobre a relação marido-esposa, pai-mãe, uma das cenas mais emblemáticas é a da chegada de Serge em casa após o trabalho. Ele está preocupado com as contas e traz consigo a carga de um dia estressante. Já ela, entediada e inteiramente imersa por quase um mês na mesma condição, exige dele a atenção que deveria ser espontânea para um assunto que diz respeito igualmente aos dois, mas que é ela quem carrega. Eles não conseguem se sintonizar e daí surge um dos melhores diálogos do filme.

O Olmo e a Gaivota entrou definitivamente para a lista dos meus preferidos do ano e para a curiosa lista dos filmes sempre ótimos envolvendo trupes de teatro/circo: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, O Sétimo Selo, Santa Sangre, Birdman, Tatuagem, Sangue Azul.

Ele é uma grande realização e é um bom sinal termos uma diretora brasileira envolvida na sua produção. Que venha mais de Petra Costa, e que eu encontre logo o Elena (seu filme anterior) para assistir.

Roberto Stahelin, é publicitário, mas está esperando sair seu primeiro roteiro produzido ou livro publicado para mudar de status.

Comments


Deixe uma resposta


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *