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Tuesday, September 22, 2020
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O peso da goiaba

Vejo na avenida um carro velho à minha frente, a andar lento, com dificuldade, porta-malas arriado quase encostando no asfalto….

By Redação , in Brasil Cássio Zanatta Mundo News & Trends , at 15/09/2020

Vejo na avenida um carro velho à minha frente, a andar lento, com dificuldade, porta-malas arriado quase encostando no asfalto. Deve estar transportando algo muito pesado. Por uma estranha associação de ideias que acometem as pessoas estranhas, sou levado ao começo dos anos 80, quando o Opalão do meu pai voltava de São José assim, com a traseira baixa, prostrado, carregado de goiabadas.

     Minha mãe tinha uma amiga que encomendava centenas de goiabadas feitas por madrinha Rosa. Não me lembro de seu nome, lembro o vocativo que lhe cunhamos: a Traficante de Goiabadas. Era claro que ela atuava numa espécie de mercado negro dos doces, revendendo as maravilhas por um preço maior e contribuindo com a inflação que, naqueles dias, atazanava a vida dos brasileiros. Vai saber se ela também tinha um fornecedor de queijos para completar a sobremesa e assim realizar o crime perfeito. A mim você nunca enganou, Traficante de Goiabadas.

     Talvez eu esteja sendo um pouco injusto. Para contrabalançar o peso do carro, havia o perfume das goiabadas alegrando motorista e passageiros. Às vezes parávamos em algum posto para dona Celina surrupiar uma barra das centenas para nos regalarmos na viagem. Entendi ali o que significava a expressão custo-benefício: o prejuízo de deixar de vender uma era mais que compensado e comemorado.

     Por que as goiabadas pesam tanto? Não o fazem no estômago, por que no porta-malas? Por fora, a fruta não parece ter nada de mais, é sem graça até, como algumas pessoas que a gente vai descobrindo a beleza aos poucos. Impressão minha ou as brancas, além de menos vistosas e saborosas, pesam um pouco mais?

     Certo é que na minha terra goiabeira era praga, em qualquer canto tinha uma. Não faltava matéria-prima para madrinha. Pegávamos a fruta no pé e a comíamos quentinha pelo sol, raramente sem encontrar após a primeira mordida metade de um bicho de goiaba. Adivinha onde estava a outra metade.

     Hoje, não há tantas goiabeiras. Também há poucos meninos subindo em pé de árvore. Talvez até os bichos de goiaba estejam na lista das espécies ameaçadas de extinção.

      Se o leitor permitir uma sugestão para deixar a vida mais leve, sugiro deixar uma goiaba na fruteira. Uma única já serve. Nem é preciso comê-la, sua presença já envolve a cozinha com um perfume de infância, de goiabeira ao sol, de fruta no pé, de mãe e madrinha, de tachos de cobre mexidos por mãos fortes num fogão a lenha. Um perfume de Brasil.

     Minha mãe se foi, o Opalão, mundaréu de goiabeiras, os traficantes seguem prosperando, e madrinha Rosa anda cansada de fazer doce. Talvez só os carros rebaixados pelo peso seguem teimosos seu fardo.

     Já é alguma coisa. Alguma coisa.

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