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O que dizem as folhas

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Um vento forte na madrugada derrubou as folhas das quatro mangueiras atrás da velha casa, o que não deixa de ser estranho: a gente olha para o alto e todas as folhas parecem ainda estar lá. Mas o chão está forrado de folhas caídas. Piso nelas e não acontece barulho algum, o sereno da madrugada as umedeceu e emudeceu.

Essa é uma vantagem de viver em climas frios. As folham secas, quando caem, continuam secas no chão, a gente pode pisar nelas e ouvir aquele crepitar bom.

Ando por esse pomar onde passei uns 6% da minha vida. Diferente dos 0,2% em que estive andando pelo frio da Europa, onde uma vez me deitei sobre uma cama de folhas secas e até me cobri com elas. Aqui, nunca tive muita coragem. Por essas bandas, a vida é excessiva: há sempre uma minhoca ou lesma ou formigueiro espreitando. Nem vamos tocar no assunto aranhas. Minhocas não são problema, elas preferem se enfiar debaixo da terra. Tatus-bolinha são bem-vindos. Já os besouros não fazem mal, mas o rastejar de suas patas é desagradável ao homem, o que claramente é um problema do homem, já que o besouro está por aqui muitos e muitos anos antes da gente.

Por mais calorosa que seja a luz do sol vazando entre os galhos, a sombra das árvores ainda vai deixar as folhas molhadas por um bom tempo.

Hoje meu pensamento está empacado como essas velhas mangueiras que perdem sua centésima geração de folhas. Para ajudar, os dedos dos pés estão cor de musgo, sujos de terra molhada. O estranho frio nos pés que resiste ao sol. O silêncio que faz tanto barulho.

Umas rolinhas andam pelas folhas, atrás dos mesmos bichos que me impedem de deitar. Está bem assim, prefiro estar cercado de rolinhas do que poder deitar no chão, nesse ponto eu e a natureza estamos de acordo. Evitemos os temas marimbondos e espinhos, vamos manter nosso entendimento, por enquanto.

Corre um fio de água mais adiante, vindo direto da mina de cima, limpo e rasinho; daria até para deitar ali, não fosse a água mais fria que já conheci na vida, incluindo as águas degeladas dos Alpes que formavam um riacho, em que meti meus pés e que, ao invés de cor de musgo, ficaram brancos, depois azuis e então cinzas. Mais alguns segundos e não sei se eles estariam aqui para me ajudar a andar e contar esta imprescindível história.

Falando em frio, vou entrar e esquentar o café. A família deve estar acordando. Diferente do leitor, a quem esta prosa besta deve ter dado sono. Só não se deite no chão, é meu conselho, não se deite no chão de folhas secas mas úmidas do Brasil. Mas também não é o caso de ir para a Europa. Deve ser quase inverno por lá e, nesse caso, quando olhar para o alto, não haverá folha alguma nas árvores peladas. Nem besouros ou taturanas. Pode haver sol, mas estranhamente, ele não esquenta. Mas sempre haverá um café para esquentar – eita, o café, já ia me esquecendo. Licença.

 

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