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Thursday, October 29, 2020
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O que vão falar?

O que vão falar de mim quando souberem que até os 11 anos fui corinthiano? Que prefiro ouvir alguns amigos…

By Redação , in Cássio Zanatta Mundo News & Trends , at 13/10/2020

O que vão falar de mim quando souberem que até os 11 anos fui corinthiano? Que prefiro ouvir alguns amigos do que os líderes do setor? Que cada vez mais prefiro descobrir coisas novas nos livros de sempre a descobrir autores novos?

     Que vão pensar os colegas do colégio jesuíta, ao me saber tão descrente? No bar, quando descobrirem que tudo o que bebi esta semana foram duas taças de vinho rosé? Que às vezes fico um mês sem pegar o violão? Que nunca aprendi a andar de bicicleta?

     O que dirá a velha foto em que nosso time aparece sério, todos perfilados, ao saber que não bato uma bola há uns 10 anos?

     Quando souberem que sempre votei nos candidatos errados, que nunca ganham? Que prefiro café de coador ao expresso, porque leva mais tempo para fazer e, na consequência das coisas, para tomar? E que sou um neandertal que prefere ler jornal no papel ao digital – gosto do cheiro, do barulho da página virando, e de ter com o que forrar o chão depois.

     O que vão pensar de mim em São José, quando eu disser que provei – e gostei de – escargot? Ou em Miami, quando eu confessar que não gostei de Miami? Que gosto de comida de avião (não pelo sabor, mas pela viagem)? Que, quando estou na Bahia, penso em Tiradentes, e, quando em Paris, em São José?

     Como vão me julgar antigas cartas e declarações, quando se tornarem irreconhecíveis, a mim ou as pessoas a que se destinavam? Como a música antiga vai aceitar o fato de que eu esqueci quem ela me fazia lembrar? E a decepção da família quando entender que gosto às vezes de ficar sozinho, que cultivo certa solidão, de preferência com pouca luz e música baixa?    

     Terei algum respeito dos intelectuais sem nunca ter lido Joyce e Foucault? Continuarei a envergonhar meus professores de gramática? Alguma linha do que escrevi será admirada daqui a 30 anos? Terei paciência para os filmes franceses em preto e branco com diálogos existencialistas?

     De qualquer maneira, acho que todos vão pensar o que pensam de cada um: que ninguém bate lá muito bem (Aproveito a oportunidade para agradecer o pouco rigor dos exames psicotécnicos que encarei nesta vida).

     E o Cássio de lá atrás, digamos, o dos 25 anos (muito mais pretensioso, diga-se de passagem), o que iria pensar ao me ver hoje? Ficaria desapontado, rangeria os dentes, esperava mais? Faria pouco das conquistas, veria algumas decisões como indesculpável traição, e me cobraria as não cumpridas?

     Não acredito nisso. Acho que, no máximo, chacoalharia a cabeça numa aprovação discreta. Quem sabe até abrisse um sorrisinho. E talvez este seja o julgamento que importa.

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