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O roxo da amora

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Na cidade tem muita sujeira, disputa e pernilongo, mas também tem amora. Amoreira deve gostar de poluição, inversão térmica, caminhão de lixo, luminoso de néon, obra do metrô, sei lá, porque aqui tem mais do que na minha terra e não era para ser assim.

Fato é que as amoreiras fizeram bem à cor roxa. O roxo nunca foi muito apreciado. Costuma aparecer em velórios, machucados, trajes de bruxas e isso não contribui para sua reputação. Até que chega essa época do ano e o roxo pinta as calçadas. Alguém dirá “suja”, mas não vamos levar esse alguém em consideração.

Perto de casa tem um terreno onde vão erguer um prédio. No terreno tem uma amoreira das bitelas. Espero que a deixem lá quando começarem a obra. Não tenho nada contra prédios, mas a cidade já tem milhares, quem dera tivesse tanta árvore. Aliás, se a gente chupasse mais amoras, veria a jequice que é batizar prédios de Golden Garden ou Tatuapé Tower Business Plaza.

As amoreiras são danadas. Deixam as frutas mais escuras e doces bem no alto, reservadas aos passarinhos. Já a gente, quando consegue achar uma ao alcance da mão, é daquelas apagadas, azedas. Tudo se resolveria com uma escada, mas é mais fácil achar prédios ou amoreiras do que uma escada dando sopa na calçada.

Aí vem a maldade: algum entendido disse que amora não é fruta, mas infrutescência. Isso não se faz. Percebi que, depois dessa desonrosa classificação, de vingança as amoras boas estão ainda mais inalcançáveis. O sujeito que definiu a pobre assim só pode ser uma alma azeda e descolorida que jamais daria em boa geleia. Só de castigo, deveria achar 50 nomes decentes para prédios.

O que podia aparecer mesmo é um artigo dizendo que amora faz bem para isso ou aquilo. As pessoas adoram ter essas desculpas para apreciar as coisas, a delícia não basta, precisa contribuir para o bom funcionamento do sei lá o quê. Está decretado então que amora é excelente para o intestino grosso. Em relação ao delgado, as pesquisas estão avançadas e é muito provável que também o seja.

Ou poderiam criar (se é que já não existe) a ADAA, Associação em Defesa das Amoreiras Ameaçadas. Começaria por colocar na presidência minha tia Cidinha, que poucas vezes vi vestida de roxo, é verdade, mas às vezes é brava como também sabe ser doce. Combina com amora.

Hoje passei em frente à obra e vi que a amoreira continua lá, carregada. E o chão, todo manchado. Ainda há esperança na humanidade (pouca). Maior, só se uma alma sonhadora desse ao empreendimento um nome singelo, brasileiro, como Edifício Jardim das Amoras ou Roxo Que Te Quero Amora ou ainda As Mais Docinhas Ficam No Alto.

Mas isso é pedir muito. Uma escada já estava de bom tamanho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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