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O silêncio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Escuta como pesa. Era para ser nada, resolveu ser martelo. Silêncio coisa alguma, invade o ouvido e insiste num zumbido infernal de tão inexistente.

Vou interfonar para o vizinho reclamando dessa porra de silêncio. Vou sair de pijama na rua, irromper no bar e dar um esculacho nos briacos calados. Invadir a festa que não há no 31 e dizer que assim não é possível. Pular a grade do prédio vizinho, ignorar os braços agitados do porteiro dentro da guarita, subir correndo as escadas e esmurrar delicadamente a porta do sujeito que não berrou da janela no gol do adversário.

Onde os rojões que acordam os cachorros e os fazem latir em desespero, e despertam os bebês que esperneiam de susto, por sua vez acordando os pais, assim substituindo o silêncio pela vida? Onde as sirenes que nos tranquilizam de madrugada? O bêbado que canta Lupicínio na madrugada? – não me diga que ele se reconciliou com a amada. Alguém grite alguma providência.

Ligar ao mesmo tempo televisão, computador, aspirador, o robô de pilha antigo e o rádio-relógio nos programas mais barulhentos. Que o pastor evangélico esteja particularmente irado contra os possuídos e urre com histeria. Assistir a um filme de terror e berrar de pavor. Quem sabe alguém se assuste, grite também e espalhe essa cadeia de, enfim, barulho.

Lá fora, a tempestade. Mas só o relâmpago, o trovão se quietou. Só vemos as árvores balançando quietas, como se a janela estivesse eternamente fechada. Mesmo os pingos, caem com grossura na moita. Mas as moitas, você sabe, já vêm com amortecedor de fábrica.

O baque do besouro na parede. O pouso da folha. O caminho do pente. A mudança do vento. O estalo do pensamento. O nascimento da estrela. O piscar do vagalume. Como grita o silêncio.

Nessa hora faz falta o tic-tac no relógio digital.

Enfim, ouvintes que me lêem: confesso em alto e bom som que tive a chance de quebrar o silêncio, mas nada consegui dizer. Eu devia ter soltado a voz, mas engoli quieto no meu canto. Ganhei a compreensão de todos, mas a saúde vai me cobrar caro. Ficou essa pausa, clamando para quem quiser ouvir.

A culpa é toda minha. Mas peço encarecidamente que façam silêncio sobre isso.

 

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