O sinal

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela Tom via o Corcovado e o Redentor. Eu, menos sortudo, vejo o sinal de trânsito. Não fica exatamente na esquina de casa, mas bem adiante, a umas cinco quadras, num espaço estreito do meu ponto de vista, no preciso intervalo entre as copas de duas árvores, um telhado e dois prédios. Posso passar um bom tempo acompanhando seu trabalho e bem faz o leitor se não quiser me acompanhar em tema tão maçante.

     Vejo como passa decidido do verde para o vermelho, para voltar para o vermelho em exatos 45 segundos, com uma breve passagem pelo amarelo. Lembro quando o amarelo se acendia também na ida, entre o vermelho e o verde, já foi assim, mas faz tempo que não é mais. Não sei como o sinal não se atrapalha. Fosse eu, lascaria o amarelo em cada mudança e ainda surpreenderia algum motorista acendendo um azul turquesa.

     Sua vida não chega a ser propriamente interessante, mas é mais necessária do que a de muita gente inconsequente que, se não fosse ele, se esborracharia na primeira esquina. Sua autoridade é constantemente questionada quando um cachorro atravessa no sinal verde e a dúvida paralisa o sujeito diante do vermelho. Mesmo essa pausa que faço para observá-lo, estanca algumas vontades e me impede de fazer bobagem.

     Não me parece provável que eu chegue ao fim desta crônica falando apenas desse sinal. Espero que ela não saia tão previsível e monótona como é o seu funcionamento e, como ele, tenha alguma utilidade.

    Quando chove, o sinal apaga. Às vezes fica apenas o amarelo piscando, outras nem isso. Nem precisa ser um aguaceiro, com alguns pingos ele já se entrega. É como eu: acha que chuva é pra gente se desligar, parar o que está fazendo para espiar com calma o vento, as folhas se molhando nas árvores, as pessoas com pressa para achar um abrigo. É um sonhador irresponsável.

     Para quem acha que ele nada diz, revelo que ele emite lá seu som. Mas pouquíssimos ouvem e mesmo os que o fazem dizem que não passa de um “tec, tec, tec” cada vez que ele muda de cor. Diz somente o necessário, lacônico, aprendeu seu silêncio com as madrugadas, e isso é bom, tanta gente que defende cada coisa hoje em dia que vou contar.

     Uma coisa favorável aos sinais é sua indiferença. Ela nos conforta: diante de um grave problema, alguma urgência, uma aflição qualquer, um amor desfeito, a decisão do campeonato, a autuação da prefeitura, tudo o que temos a fazer é imaginar que, passada a tormenta, o sinal amanhã continuará piscando no seu ritmo de 45 segundos e a vida voltará a entrar nos eixos. No fundo, ele tem razão: tirando problemas de saúde, muito difícil que a gente se lembre de um grande problema que nos afligia, nos tirava o sono, quatro, cinco anos atrás. Não tinha essa importância toda. Passou, como o vermelho passa do verde e vice-versa, com uma pausa no amarelo.

     Tenho que descer para ir ao cartório resolver umas pendengas. Abandono o sinal à sua sorte, emitindo na tarde de sol seu “tec, tec, tec” que ninguém ouve. Não faz mal. Tanta gente grita pelas janelas desta cidade e tampouco alguém parece escutar.

     Pela janela, espero o… verde. Lá vou eu.

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