fbpx
Tuesday, September 22, 2020
-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-


O vigia

    Trabalha a poucos metros da entrada do meu prédio, numa dessas guaritas de fibra de vidro que lhe assegura…

By Redação , in Cássio Zanatta Mundo News & Trends , at 01/09/2020

    Trabalha a poucos metros da entrada do meu prédio, numa dessas guaritas de fibra de vidro que lhe assegura proteção e de onde, por uma pequena janela, vigia a rua.

     Passa a maior parte do dia do lado de fora da guarita, imagino que lá dentro deva fazer muito calor, e a luz insuficiente não lhe deixa ver o jornal. É educado, tem boa prosa e um banquinho onde de vez em quando descansa. Os moradores sempre levam um café e pão com manteiga para que o homem tenha forças, se bem que força não parece ser o forte. Seu sorriso conquista mais que do que seu físico e até agora ninguém tem notícia de alguma ocorrência nas cercanias.

     Vigia ao mesmo tempo a rua e o céu. Confio mais nas suas previsões do tempo que nas dos entendidos. Costuma acertar se chove, se esfria ou não, e ainda informa quando volta a luz, que dia o amolador passa e as chances do nosso Santos no Campeonato Brasileiro.

     Honestamente, não saberia dizer se é competente como vigia. Parece mais atento às moças que desfilam pela calçada que nos eventuais riscos à segurança. Quando alguma mais formosa passa por ele, ao invés daqueles que admiram disfarçando, vira a cabeça, o corpo e aprova erguendo os polegares como a convencer um júri imaginário.

     Dele gostam também os quatro cachorros que a velha toda manhã leva para passear – quer dizer, nunca sei ao certo quem leva quem ali, os cachorros parecem ter assumido o controle, param onde bem entendem e fazem festa para o vigia. Só quando sossegam é que a senhora conversa um pouco com ele. Talvez fosse o caso de acrescentar às suas funções a de conselheiro sentimental do bairro. Muitos abrem a ele o coração, e o homem sabiamente mais ouve do que diz, que essa história de palpitar sobre os sentimentos dos outros é um vespeiro.

     Já o vi dividindo seu pão com as rolinhas da rua. Como não são bobas nem nada, vêm em cada vez maior número, o que foi tema em recente reunião de condomínio: uma das moradoras chamou a atenção de que o vigia, jogando migalhas, estaria atraindo as pombas e sujando a calçada (para ela, pombas e rolinhas são a mesma coisa, o que está longe de ser verdade. Verdade é que às vezes dá um desânimo).

     Nisso seu trabalho é parecido com o meu. Ficamos os dois, sempre atentos às ocorrências, de olhos abertos fingindo não estar, ainda que passarinhos, mulheres e garoas desviem nossa atenção. A diferença é que ele espera que nunca aconteça nada de estranho, e para mim isso não seria nada mal, ao menos teria assunto.

     Do contrário, o leitor vai ter que se contentar com uma crônica chocha como esta, obra incerta de um vigia das inutilidades. Se o trabalho de um tem sua importância – quem não se sente melhor com uma profissional a postos? –, o do outro talvez inspire alguns devaneios, que prestar atenção a nuvens e cabelos é um perigo. Não sou vigia profissional, mas digo com toda a segurança.

Comments


Deixe uma resposta


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *