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Oito horas e um minuto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Acordo com a explosão do Vesúvio. Caos, pânico, paredes tremendo, o barulho que o fim do mundo deve fazer. Mas não estou em 79 DC, não estou em Pompeia, e sim dormindo numa cama confortável em Santos no verão de 2018, o ar-condicionado está ligado e hoje é sábado.

Leva um tempo para a gente se dar conta de onde está, que o mundo não acabou e que o barulho vem de uma reforma no apartamento de cima. Posso imaginar o grupo de dedicados pedreiros destruindo com determinação essas paredes grossas de antigos apartamentos, e que isso exige força, martelos e marretas poderosas.

Ainda meio zonzo, penso em ligar para a portaria reclamando. Mas não devo ter razão, os estatutos dos condomínios devem permitir reformas a partir das 8 horas, não importando se é sábado, verão e se o vizinho incomodado na verdade está um pouco de ressaca. Além disso, na minha opinião meio afetada pelo susto, esse porteiro é meio banana.

Sonho (verbo apropriado ao momento) com um mundo onde os estatutos enfim estejam a meu favor. No caso, o evento seria interrompido pela campainha, os pedreiros abririam a porta e dariam de cara com um porteiro menos banana: “Lamento, é vedada a destruição de paredes antes que o vizinho acorde sossegado, cansado até de tanto dormir e em paz com o mundo, incluindo o pernilongo que o importunou de noite”. Vejam que sou um sonhador que não consegue dormir.

Meu vizinho tem pressa. Quer que o serviço termine logo, por isso exige que os trabalhos comecem cedo. Tem toda razão, reformas são uma maçada mesmo (o vizinho de baixo que o diga). O curioso é que tudo silencia logo depois que eu acordo, não há trabalho, marreta ou barulho até o fim do dia, somente das oito horas e um minuto até o tempo do Cássio levantar da cama. Imagino os operários confabulando: “Bom trabalho, rapazes, ele quase teve um troço de tanto susto, abriu a janela conformado e está escovando os dentes. Já despertamos o cidadão, podemos parar”.

Vejo pela janela que está um lindo dia. A máquina do mundo não está nem aí se você consegue ou não dormir, só quer é acontecer. E acontece que o dia está perfeito para a praia, ao menos um passeio no Orquidário, certamente um sorvete ou uma caipirinha com mariscos. E sempre há a preguiça depois do almoço para uma sesta. Veja, prezado estatuto do condomínio, que sua derrota é fragorosa: contra seus ilusórios minutos de vitória, um dia inteiro de luz, ventos e glórias. E olha que nem toquei no assunto sombras de chapéu de sol e mergulhões atrás de peixes caindo feito torpedos no mar.

E há sempre a possibilidade da vingança. Posso ser advertido pelo condomínio, até ser multado, é totalmente contra os estatutos, mas não quero saber: hoje vou fazer minha imitação de Elvis no banheiro (faz mais eco) cantando Love Me Tender às três da manhã numa interpretação lancinante. E fazendo questão de dar uma desafinadinha irritante no “true”. Me aguardem. Conto com a bananice cúmplice do porteiro.

Agora, licença que vou aproveitar o silêncio, o dia magnífico, a máquina do mundo em pleno funcionamento e voltar a dormir.

 

 

 

 

 

 

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