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Os 10 anos de Lost: entre Narnia e PKD

Os 10 anos de Lost: entre Narnia e PKD Já se passaram dez anos desde que o Doutor Jack Sheppard…

By Redação , in Coluna , at 07/10/2014

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Os 10 anos de Lost: entre Narnia e PKD

Já se passaram dez anos desde que o Doutor Jack Sheppard abriu os olhos e descobriu que era um dos sobreviventes da queda do Ocean 815 em uma ilha. Desnecessário repetir aqui o impacto que a série de Damon Lindelof, Carlton Cuse e J.J. Abrams teve sobre a tevê e a cultura pop em geral. Durante seis anos uma multidão de fãs explorou centenas de teorias conspiratórias para explicar desde o acidente, a escotilha, os números que apareciam por trás de dezenas de eventos aleatórios, as indas e vindas no tempo… e todos nós esperamos pela última temporada para saber como tudo isso seria amarrado por fim.

Me incluo entre aqueles que terminou de assistir a série indignado com o último episódio.  Recentemente, quando “Breaking Bad” também chegou ao seu final, pipocaram postagens que diziam mais ou menos o seguinte: “produtores de lost aprendam como fazer um final”. Na época, Lindelof foi convidado pela The Hollywood Reporter para escrever sobre a conclusão de “BB” e acabou obrigando a se defender mais uma vez, alegando que era o final que sempre pensaram, que estavam planejando isso desde o começo. Melodramaticamente, encerrou o texto dizendo que nunca mais tocaria no assunto e depois cancelou sua conta no twitter.

Ultimamente, lendo as dezenas de homenagens à série, começo a desconfiar que nós, os descontentes, somos a minoria. Nunca mais assisti o último episódio, suspeito que, quatro anos depois, possa mudar de opinião. Mas, para mim, o caso era simples. Lost misturava física quântica, religião e filosofia em meio à tiros, perseguições e reviravoltas (temporais, inclusive). Os produtores poderiam ter escolhido um destes caminhos para fechar todos os pontos e encerrar a série. Optaram pela mais simples, a religiosa. Mesmo porque, neste caso, é tudo uma questão de fé. Ou você acredita ou não acredita.

Nunca acreditei na hipótese que realmente este era o fim planejado desde o início. Insisto: era o final mais prático. Mas, recentemente li uma entrevista de Carlton Cuse, considerando a possibilidade do retorno de Lost, pois os direitos pertencem à Disney, proprietária da emissora ABC, e que não costuma desperdiçar a chance de fazer dinheiro. Cuse comparou a série com as “Crônicas de Narnia” de C.S. Lewis, em que diferentes personagens voltam ao mesmo cenário em distintos momentos. Mas, há muito mais. Há uma penca de referências à Nárnia em Lost, incluindo personagens que homenageiam o autor e, principalmente, a resolução para a história. Como você pode conferir aqui (com spoilers sobre as duas obras): http://lostpedia.wikia.com/wiki/The_Chronicles_of_Narnia. E, essencialmente, Narnia não é apenas uma história de jornada espiritual, ela foi deliberadamente pensada por Lewis como instrumento de propaganda cristã (o autor era um fervoroso cristão).

Pensei em Lost e sobre suas outras possibilidades quando terminei de ler “Ubik” de Phillp K. Dick. Se as obras deste escritor americano não lhe são familiar, as dezenas de adaptações cinematográficas são, entre elas, O Vingador do Futuro, MInority Report e Blade Runner, que PKD ainda assistiu com aprovação antes de falecer em 1982.

Dick também foi influenciado por religiões e filosofias orientais como Lost. Como escritor de ficção científica, obviamente, também tratou de temas como telepatia, viagens no tempo, etc. Mas, fundamentalmente, sua obra como um todo orbitava entre o sentido da humanidade e o que era real. Não era a toa. PDK era esquizofrênico, acreditava viver em muitos dos mundos que escrevia e atestava que este nosso mundo aqui não era o real. Em 1974, passou por uma experiência religiosa (transformada em quadrinhos por Robert Crumb) e desde então acreditava que seus textos eram manifestações deste encontro divino.

O início de “Ubik” exige um pouco de paciência dos leitores, pela quantidade de informações, aparentemente sem nenhum sentido, que o autor vai despejando no texto. E lá estão todas as características de Dick: a influência dos romances de detetives noir e das ficções cientifícas baratas, telepatas, a crítica contundente ao capitalismo, quase que tudo em uma só dose. Há muito em comum com Lost, como as reviravoltas no enredo e, em especial, a mudança no tempo. Porém, PDK vai fechando as amarras sutilmente e, ao final, com coerência. E, sim, “Ubik” é também uma metáfora religiosa. Mas o autor evita a lição de moral que está implícita em Nárnia e em Lost. Suponho que Damon Lindelof e Carlton Cuse não leram Phillip K. Dick ( J.J. Abrahms deixou a série no meio para se dedicar ao cinema). Uma pena. Provavelmente o final “que sempre quiseram contar”, ganharia muito em qualidade.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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