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Wednesday, June 3, 2020
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Pandemia

É uma palavra traiçoeira. Tirada do texto, fugida da linha, ela é até engraçada, parece prenunciar coisa divertida. Assim, uma…

By Redação , in Cássio Zanatta Coluna , at 12/05/2020

É uma palavra traiçoeira. Tirada do texto, fugida da linha, ela é até engraçada, parece prenunciar coisa divertida. Assim, uma mistura de pândego com ironia. Ao ouvi-la parada no ar, a gente se detém, esperando a piada, risadas a postos. Num requinte de crueldade, faz-se rimar com alegria.

     Mas não há graça alguma. Ela não faz a menor questão de ser simpática. Mais rápido que o programado, mostra sua crueldade: atira-nos no chão, a clamar aos céus de joelhos, revelando nossa condição indefesa, miserável.

     Do jeito mais duro, descobrimos que pandemia não se insere no grupo das palavras que inclui risada, bem-me-quer, catavento e algodão-doce. Ela se sente mais à vontade no grupo dos carrascos, punhalada e impotência.

     O tempo joga a seu favor: é urgente na disseminação e lentíssimo na descoberta da vacina; rápido para espalhar o caos e todo tartaruga para encontrar uma saída.

     É uma invisível nuvem de cianureto? Um atirador escondido na ramagem de cada árvore? Nossa calçada transformada em campo minado? A bomba atômica que nem faz questão de desenhar cogumelo?

     Sua astúcia torce pelos que a desafiam. Conta com os que a negam, que a desdenham, fazem pouco de sua capacidade. A estes, agradecida pela contribuição, ela costuma poupar. Pode não ser justo, mas se há algo visível numa pandemia é que não há justiça.

     Milhões de infectados. Ri de seu poder a pandemia?

     Milhares de mortos. Seu coração esconde algum resquício de piedade?

     Tombam os homens e mulheres. Tomba o vizinho, a manicure, o verdureiro, o artista, as celebridades nos telejornais. Cai a lágrima, abrindo caminho nos sulcos do rosto. Se chega à boca, não traz o sal característico, mas um amargor que não passa nem com quindim.   

     Ainda por cima, a notícia de que os hospitais de campanha, os aventais para os profissionais de saúde, a compra de máscaras e equipamentos, foram superfaturados. Nada está tão ruim que a ganância dos homens não possa piorar.

     Pobres de nós, os miseráveis, os ricos, os doutores, os analfabetos, os ó de casa, os sem casa, diabéticos, flamenguistas, halterofilistas, apicultores, enxadristas, todos espremidos no verbete pobre-diabo. Coitado até de quem esperava encontrar uma crônica leve e animadora.

     Trinta mortos por hora. O vexame de um exército que entra na batalha sem armas ou estratégia. Dizem que o brasileiro não tomaria juízo até que vivesse o sofrimento de uma guerra. Bem, sejam bem-vindos.

     Não, cruel não é este texto. É a verdade. Os fatos. Essa porcaria de vírus. As mortes do Fabio e do Aldir. Este dia tão triste.

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