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Friday, May 29, 2020
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Pare de reclamar

Neguinho reclama demais, tá doido. Reclama da vida, da morte, do emprego, de como andam as coisas, de como andavam…

By Redação , in Cássio Zanatta , at 16/03/2020 Tags:

Neguinho reclama demais, tá doido. Reclama da vida, da morte, do emprego, de como andam as coisas, de como andavam as coisas, reclama do calor, três dias depois de maldizer o frio.

     Reclama de ter de votar, de não ter em quem votar, da demora da apuração por conta do fuso horário do Acre.

     Critica a moça do telemarketing que liga a essa hora (seja que hora for), o garçom novato que trouxe a água sem gás, o moço do pedágio que demora mais do que 7 segundos pra dar o troco, a tuba do 104 e o síndico que não toma providências contra a tuba do 104.

     Reclama de ter de fazer a unha, acusando a pobre de crescer rápido demais. Quem não reclama da rapidez é a lua, que semana passada era só uma unha fininha, em cinco dias cresceu tanto, hoje quase cheia.

     Xinga o guarda que tenta ajeitar o trânsito. Maldiz essa juventude de hoje (seja que hoje for). Esconjura a conta de luz que chega todo mês, esquecendo que graças a ela pode ter luz em casa e, assim, assistir ao Faustão, fazer pipoca no micro-ondas, tomar banho quente, fazer bronzeamento artificial ou dar gostosas gargalhadas fazendo sombras de bichos na parede.

     Rói os dentes (triste) diante do sucesso de fulano, sempre imerecido.

     Desce a lenha no sistema e na anarquia; na correria da semana e de não ter o que fazer no domingo; no pastel que é só vento e no que exagerou no recheio; no barulho das crianças e, depois, no silêncio na ausência das crianças. Reclama aos gritos, gesticulando, ou resmungando baixo para si mesmo.

     Na praia, reclama da chuva que não para ou do sol muito forte, diz que sempre gostou mais de campo. No campo, reclama que pouco acontece ou que tem bicho demais – sempre gostou mais de praia.

     Conformados com os protestos estão os buracos na calçada e os bandeirinhas, enquanto os dentistas às vezes se magoam. Já os maridos desenvolveram uma conveniente surdez quando sentem nascer a semente da reclamação na boca da sogra.

     E quando a gente acha que a pessoa vai sossegar, reclama do fígado, de só caberem oito pessoas no elevador, do filho que não estuda, do filho que estuda demais, do excesso de parênteses, da manifestação, da ausência de manifestação, e de todos os outros motoristas do planeta que, sem exceção, ou dirigem como lesmas ou correm feito doidos.

     Reclama do caroço da azeitona da empadinha, quando não encontra mais do que reclamar.

     Então, subitamente, alguém chega correndo para lhe devolver os óculos que havia esquecido na padaria. Agradece a gentileza, guarda os óculos no bolso, chega a abrir um sorriso, se dá conta do que fez e fica muito sem graça.

     Andava enferrujado de agradecimentos.

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