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Política externa brasileira – Estado não é Governo

Política externa brasileira – Estado não é Governo A polêmica frase do diplomata israelense chamando o Brasil de “anão diplomático”,…

By Redação , in Coluna Mundo , at 14/08/2014 Tags:,

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Política externa brasileira – Estado não é Governo

A polêmica frase do diplomata israelense chamando o Brasil de “anão diplomático”, foi fruto de uma atitude desrespeitosa e antipolítica. Causando grande desconforto ao país em âmbito internacional. Mas há lições para serem tiradas de tudo isso.

A primeira delas é a importância da coerência em matéria de política internacional. O poder de um Estado está ligado à influência de sua palavra e sua capacidade de impactar as relações internacionais. O governo brasileiro não emitiu notas quando Nicolás Maduro perseguiu e prendeu prefeitos de oposição acusados de opiniões contrárias a seu governo na Venezuela, tampouco algum porta voz do Itamaraty condenou a anexação da Ucrânia pela Rússia há poucos meses. É nítida a aproximação com a Venezuela, principalmente após sua entrada no Mercosul, e também ainda mais evidente o relacionamento com a Rússia, o R dos BRICS. E em política pragmatismo também é uma estratégia válida.

Mas um país que almeja ganhar influência no mundo precisa ir além do silêncio quando o discurso não lhe conveniente. Nos pronunciamos apenas quando é de interesse do governo, e não do Estado. Escandalizar-se pelo que ocorre em Israel é assumir uma postura coerente com nosso histórico de defesa dos Direitos Humanos, mas totalmente desalinhada com a postura adotada diante de outras controvérsias internacionais. Dessa forma, perde-se credibilidade. Lembra um pouco a célebre frase “aos amigos tudo, aos inimigos, a Lei”, que muitas vezes impera em nosso cotidiano.

A segunda lição que se deve apreender do episódio com o governo de Israel é a diferença existente entre política externa de Estado e política externa de governo. Política de Estado visa um projeto de país, independentemente do partido político que está no poder. Nesta esfera, elaboram-se políticas de forma mais democrática, passando por debates em parlamento, ambicionando um projeto de conquistas para o país no curto, médio e longo prazo às vistas da “vontade nacional”. Política de Governo diz respeito a matérias elaboradas em âmbito internacional para suprir demandas internas que não necessariamente tratam dos interesses da nação.  Neste arranjo, o governo atua de acordo com seu próprio pensamento, preocupando-se menos com a “vontade nacional”, e legislando acerca da política externa em acordo com suas diretrizes ideológicas e até partidárias.

O ponto é que os episódios do “anão diplomático” e do “desproporcional é 7×1” refletem a atualidade da política externa brasileira em toda sua contradição e inefetividade. Engessada pela excessiva interferência do governo, e até mesmo pela partidarização de sua pauta na última década, que foi convertida na promoção dos interesses do Partido dos Trabalhadores (PT), a agenda de política externa brasileira está repleta de contradições e projetos de poucos resultados.

Se em âmbito doméstico a política externa não representa um tema de grande apelo ao eleitorado brasileiro, passando despercebida na maioria dos pleitos, o porta voz de Israel deixou claro que em política internacional essas questões são valorizadas, tendo em sua simbologia efeitos diretos sobre os países.

Na tentativa de converter incoerência em pragmatismo, ainda que não seja possível assegurar quais as intenções por detrás de cada ação de política externa, o governo brasileiro expôs o país internacionalmente, revelando a enorme fragilidade do atual governo na forma de conduzir os negócios do Estado. Se a política externa não retomar um rumo independente, voltado às diretrizes de Estado – não de partido –, talvez nas próximas controvérsias o Brasil nem mesmo tenha de se preocupar com as réplicas de suas contestações.

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Luiz Renato Arietti Nais é publicitário, e bacharelando em Relações Internacionais. Amante dos livros e do conhecimento. Dois-correguense, corinthiano, mochileiro e inventor de apelidos. © São Paulo Times.

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