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Por que nos apaixonamos?

em News & Trends/Saúde & Bem-estar por

Sempre que nos apaixonamos, a sensação é de como se tivéssemos feito um mergulho de cabeça no caldeirão de alguma bruxa, no ponto máximo da ebulição. Sentimos algo como se fosse um rebuliço prazeroso, ao mesmo tempo explosivo, e que vem com tanta força que o mundo lá fora fica parecendo lento e distante. Isso acontece dentro de nós e simultaneamente dentro da pessoa da nossa relação.

Outro fator interessante a saber, é que a energia que rola para o apaixonado, via de regra, sempre ocorre na reciprocidade e nunca de modo unilateral.

Quando nos sentimos apaixonados, somos acometidos pela forte sensação de que nossas necessidades mais profundas, nossas fantasias e os nossos desejos secretos, finalmente terão espaço para acontecer. Essas possibilidades são tão fortemente ativadas, que tudo à nossa volta fica parecendo como se fosse um flash de uma foto, tirada num precioso e mágico momento de êxtase. É promessa de materialização de toda a nossa plenitude existencial.

Por conta da magnitude desse tipo de experiência, nossa percepção para tudo que está além do estado de apaixonamento fica alterada. Por algum tempo costumamos perder o apetite e todo o resto, as coisas em geral incluindo o planeta parecem rodar em câmera lenta. Sensações e sentimentos inexplicáveis que apenas quem já passou por essa maravilhosa experiência entende como que é.

Destrinchando e indo um pouco mais a fundo, nos subterrâneos deste cenário portanto, podemos observar que na situação de apaixonados, invariavelmente, projetamos todas as nossas necessidades na pessoa da nossa escolha, assim como a recíproca do outro vem exatamente na mesma ordem de funcionamento.

Como decorrência deste fenômeno, é fato que em algum momento iremos despertar e quando acordarmos, certamente, perceberemos que o outro é um ser independente e que por vezes, em muitos aspectos, bastante diferente daquilo que imaginamos ou idealizamos. Se conseguirmos sustentar as diferenças e mesmo assim continuarmos a admirar os nossos parceiros, o amor em sua expressão maior terá espaço para o cumprir um verdadeiro florescimento. Mas, se em vez disso, ficarmos negativamente impactados ao vermos a realidade dos nossos investimentos afetivos bem diferente daquilo que concebemos no período do apaixonamento, fatalmente ocorrerão as dores dos desencontros, rupturas, e por fim, as desilusões.

Um aprendizado da experiência humana como se fosse a repetição da saída da barriga da mãe, ou seja, o nascimento. A repetição do ciclo (trauma?) de quando temos o suprimento de tudo que necessitamos para a nossa sobrevivência e abruptamente sofremos uma ruptura, em que somos “obrigados” ou nos sentimos jogados no mundo só e independente, sem a simbiose e tendo que lidar sozinhos com tudo o que vem pela frente. Muitas pessoas não lidam bem com esse ciclo e como se estivessem revivendo uma situação traumática, acabam doentiamente se repetindo de modo indefinido. Nesses casos, é fundamental o auxílio terapêutico para que possam seguir em frente com as suas vidas sem o vício do apaixonamento, sem as dificuldades depressivas e sem a sensação de vazio e de solidão de quando estão sem ninguém, à mercê de si mesmas.

Por toda vida, de algum modo estaremos sempre repetindo este padrão inicial de vida, onde ora estaremos juntos, ora não. Isso ocorre no apaixonamento pelo outros, na união sexual e em muitas outras situações pelas quais em alguns momentos ficamos com um, com o outro e depois voltamos ao um. Outro exemplo é na experiência criativa, na qual a princípio existe uma união com o que se cria e na sequência passa a se observar a criação fora de si mesmo.

O grande aprendizado é aprender a lidar com os momentos de união e de ruptura.

Infindáveis vezes ocupamos a mesma cama de algum projeto que estamos vivendo e ficamos nessa situação até o momento da separação, faz parte da experiência humana.

A fim de termos a reflexão sobre o aprendizado da experiência pela qual estamos passando, funcionamos como um ímã que atrai e repele. Agiremos desta forma até aprendermos a lidar com o outro, que pode ser uma pessoa ou qualquer outra coisa que seja, sem sermos simbióticos, e o principal, sem perdermos as nossas identidades.

Apaixonar-se é saudável, mas apenas até certo ponto. Por ser extremamente prazerosa essa sensação, até podemos perder a identidade por alguns momentos. Por isso, devemos sempre ficar atentos para jamais ultrapassarmos a tênue linha do risco de nos esvairmos completamente de nós mesmos. Atenção redobrada para não chegar ao ponto de esquecer de se alimentar e de se engajar em outras atividades. Uma versão adoecida disso é o que hoje em dia costumamos chamar de estresse. Por isso a importância de poder e de saber se cuidar na medida certa, sempre atentos aos nossos limites pessoais.

“Simbiose além da medida não é existir, é esquecimento de si mesmo”.

Quanto mais despertos, melhor!

Silvia Malamud é psicóloga clínica, terapeuta certificada em EMDR e Brainspotting, especialista em sonhos, abuso emocional, em traumas e em questões perturbadoras em geral. É autora do livro “Projeto Secreto Universos” da Editora Gente

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