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Porque existem as maritacas

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Você já sabe, foi um bom aluno, estudou direitinho, que toda coisa que existe neste mundo tem uma função. Nada está por acaso. Se uma espécie de abelha desaparecer na Etiópia, de algum jeito isso vai causar uma onda que devastará uma praia nas Ilhas Seychelles. Uma roda de caminhão que passe por cima de um lagarto deixará viúvas muitas espécies e talvez gere uma superpopulação de muriçocas. Aquela coisa de equilíbrio natural.

Fato é que a ameba, uma gota, a bananeira, o piolho no pelo do seu gato e Mercúrio têm sua razão de ser. Mesmo o cronista banana tem sua função: em vez de ler essas impressionantes revelações, você podia estar jogando cigarro na beira da estrada e provocando uma queimada das feias, ou descobrindo uma lagartixa no teto e tendo ideias que fariam Átila, o Huno, exclamar: “Meu pupilo!”

Sou um ignorante nesses assuntos, pouco versado no tema. A mim, de todos os mistérios sobre a Terra, só foi revelado o segredo da existência das maritacas. Vamos lá, que já enrolei muito para chegar até aqui:

As maritacas existem para contar piadas.

Ah, você duvida. Até abriu um sorrisinho cético. Nem vai dar trela ao assunto porque acha de uma bobagem sem fim. Vivemos em tempos tristes, de muita descrença, o pessoal sequer acredita em anjos ou que, para trazer a noite, um deles atravessa o céu no fim de tarde, puxando um cortinado escuro com furos de diferentes tamanhos que deixam a luz passar, formando as estrelas. Tem até quem pense que as maritacas existam só para cortar com seus fortes bicos os fios no interior das casas e silenciar telefones ou acabar com a luz.

Nada. Elas vieram ao mundo para criar anedotas. Acredite no que estou dizendo. Afinal, você nunca se perguntou de onde vêm as piadas, quem é a criatura que as inventa? Pois agora sabe.

Todo dia, começando bem cedo, as maritacas se reúnem nos fios, nas mangueiras ou nos telhados das casas e começam o concurso de piadas. Cada uma conta a sua, aos gritos (as maritacas são muito entusiasmadas). Uma se enrola nos detalhes, perde o timing e só ouve um muxoxo das companheiras. Outra ri da própria piada e nem consegue terminar. Outra ainda se esquece de como ela acaba. Há até as que contam em jogral, uma emendando a narrativa da outra. Mas todas têm de contar a sua, fato que muito irrita meu primo Luiz Antônio, que só queria dormir um pouco mais sem a algazarra das piadistas.

Enfim: de repente, uma delas conta uma muito boa, de se acabar de tanto rir. Uma que faria o bando todo cair dos fios, se elas não soubessem voar. E é justo o que fazem: levantam voo às gargalhadas, num escândalo que chama a atenção de tudo em volta e de alguma pessoa mais atenta, que anota a piada para espalhar ao mundo.

Então você já sabe: toda vez que ver um bando de maritacas passar no céu aos gritos, num desvario só, nasceu uma piada das boas. Breve vai estar nas mesas dos bares, nos cafés das empresas, nos bancos dos ônibus, nos telefonemas, espalhada pela internet – mas isso, se as maritacas não tiverem antes cortado os fios da casa. São mesmo umas danadas. Mas, se não fossem elas, qual a função dos homens que vêm arrumar os fios, restaurar a internet, religar a luz? Todos têm sua função neste mundo, lembre-se.

A do primo Luiz Antônio é maldizer as pobres no café da manhã, coçando os olhos de sono.

 

 

 

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