Portrait: “A vida revelada como foto: pode ser pra daqui a pouco, como antes, ou tem que ser pra já?”

em Coluna por

Camila

A vida revelada como foto: pode ser pra daqui a pouco, como antes, ou tem que ser pra já?

A coluna entrou no ar. E, entre os comentários e desejos de boa sorte dos amigos, um pedido bacana e incomum para os dias de hoje. No meu texto de abertura da coluna, onde apresentei sobre o que falaria, comentei sobre as fotos, hoje tão corriqueiras. Se tira foto do amigo, do passarinho e do mico que está na praça. Se posta, se compartilha, e pronto. Você é um ser social – pelo menos em parte.

Fui lembrada por uma amiga sobre o “modo antigo” de se clicar. Quando a gente tinha a máquina, os filmes, de 12, 24 ou 36 poses, que quando tinha festa, aniversário ou viagem, se carregava uma mala com as bobinas de filmes. E a ansiedade? Naquele tempo, não existia internet ainda, nem celular (e parece que eu estou falando de 60 anos atrás, mas não são mais de 20). Se você era criança ou pré-adolescente como eu, e a sua mãe saia para ir ao mercado e você esquecia de pedir alguma coisa, ficava sem, não tinha como pedir aquela bolacha. Tudo o que restava era se lamentar em sua volta.

O mesmo acontecia com as fotos. Depois de todo o processo – limitado – sim, a gente tinha que contar quantas fotos tinham ainda no filme e “guardar” espaço para a hora do parabéns. Para se ter fotos de todos, juntava-se um monte de gente, pra não faltar ninguém, afinal, vai que o filme acaba…

E depois disso, às vezes dias, outras vezes semanas ou até meses, a gente ia numa loja e pedia para revelar as fotos. Não era um serviço muito barato. Foto não era o suprassumo, mas podia ser, de alguma forma, considerado artigo de luxo.

Aí, nos melhores lugares, dentro de uma hora você podia voltar pra pegar e… “o filme não rodou quando estava na máquina, foi impossível revelar”! Isso aconteceu com a minha família quando fomos para a Disney, em 1994. O parque pelo qual mais me encantei foi o da Universal Studios. Adivinha? Sim! Só ficou para mim a lembrança do meu encanto.

E aquela foto com os seus amigos, que você saiu de olho fechado e não sabia? Se fosse nos dias de hoje, tira outra e está resolvido. Também passei por outra situação, em que o avô de um ex-namorado, em uma formatura, ficou uns dois minutos enquadrando a gente para a foto e na hora da revelação, bem, eu sai pela metade!

Em uma das últimas vezes em que usamos a máquina mecânica, em viagens de família, foi em Maceió. Tiramos uma foto ao lado de um repentista. Quando revelamos, eu não estava lá! E pior, eu jurava que estava! Aí, vendo detalhadamente, percebemos que minha irmã tinha três pernas! Não me perguntem como, porque ela é tão pequena quanto eu, mas eu simplesmente sumi atrás dela!

E aí valem algumas reflexões para os dias de hoje: será que você manteria uma foto “mico” para depois de um tempo transformá-la em um risível momento? Ou será que o mais importante é se sentir bem com a imagem que está representando ali? Teria coragem de mostrar para as pessoas, publicá-la ou guardaria para si?

Se os tempos para se ter os resultados – hoje a foto é instantânea – voltasse a ser como o anterior, se a vida te pedisse mais calma e menos ansiedade, você estaria pronto para isso?

Será que se isso acontecesse seria um retrocesso, ou será que agiríamos de forma mais tranquila, mais pensada e menos impulsiva? Será que o relatório que seu chefe pediu realmente precisaria ser para hoje, feito às pressas, ou poderia ser feito com mais calma e cuidado? E os seus sonhos, podem ser construídos aos poucos ou também tem que ser pra já?

A gente não sabe quanto tempo cada um tem de vida, mas, independente do quanto for, como a nossa sociedade está usando este tempo? Quanto para si e quanto para parecer aos outros?

O que vale mais na sua vida, a gargalhada pela foto “mico” compartilhada ou o sorrisinho frio e calculado? A vida pode ter os dois, mas cabe a você saber qual deles tem maior valor nas suas escolhas, o que te faz se sentir bem e feliz. Reflita e vá em frente! Feliz Ano Novo!

© 2013, The São Paulo Times.

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