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Que maçada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não sei se na sua família havia o “que maçada”. Na minha, ô se tinha.

Geralmente, acompanhado de um balançar de cabeça ou de um leve muxoxo nos lábios. E era coisa de tia falar, muito raro que fosse um homem, maçada era palavra tão feminina que só aceitou “a” de vogal.

Nunca foi preciso explicar o que era uma maçada. Já estava entendido por quem participasse da prosa. Maçada não era grande tristeza, hecatombe, doença incurável, amor traído ou morte de querido. Não, não se aplicava nesses casos. Maçada era de uso mais dado a sutilezas.

Maçada era alguma coisa que havia dado errado, mas não o fim do mundo. Algo que não saiu 100% direito, mas só 30% que merecesse lamento. Como um término de namoro de primo que a gente torcia para dar certo. Chantilly desandado. Derrubar molho de macarrão na calça nova. Chegar 7 minutos atrasado na seção de cinema. Maçada é saleiro que não libera o sal.

Quando vinha precedida por um “ô”, era menos importante ainda: “Fui colher pitanga, mas cheguei muito depois dos passarinhos, ô, maçada”. “Eu me distraí um segundo da panela e o leite entornou no fogão, ô, maçada.” “Gol da Argentina em amistoso. Ô, que maçada.”

Maçada é visitar a tia e descobrir que ela está em Cafelândia. É fazer 50 anos sem conhecer Ourinhos. Fim de semana com garoa na praia. Pedrada na testa não é, mas pedrinha no sapato é. Multa, não. Esquecer o caminho é.

Uma maçada que você esteja perdendo tempo com esta prosa fiada, quando podia estar beijando alguém, por exemplo. Andando de mãos dadas na rua sem que nenhum ônibus passe pela poça e espirre lama em vocês, o que seria outra coisa: azar. Mas se esse alguém não está com você agora, por estar tomando chope com os amigos ou canja na cama, isso é uma maçada. Mas se não está por motivo mais sério, digamos, porque não quer lhe ver nem pintado de dourado, isso tem outro nome. E esse nome costuma machucar. E maçada que se preze não dói.

Maçada é que essa palavra esteja em extinção. Como é terem acabado com o bonde, a marmelada, o cinema do bairro, a geleia de mocotó Colombo, as visitas. Acho que o pessoal anda dramatizando demais, qualquer problema vira um deus-nos acuda antes de ser maçada. Gente exagerada.

E que eu não saiba como acabar esta crônica. Maçada mesmo.

 

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