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Friday, August 14, 2020
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Quero só ver

Muito bem, cronista. Quero ver. Você, que se acha sensível, necessário, sempre à procura de algum caco de beleza na…

By Redação , in Cássio Zanatta , at 28/04/2020

Muito bem, cronista. Quero ver. Você, que se acha sensível, necessário, sempre à procura de algum caco de beleza na aspereza da vida, de alguma palavra que conforte, leve um sorriso que se abra pouco ou até esperança ao leitor (sem que ninguém tenha pedido, necessário dizer), quero ver você se virar agora, com esse isolamento, essa solidão causada pela pandemia, o baixo-astral, a vida parada no ar.

     No início, teve sua graça: as ruas vazias, todos em casa, o silêncio, o ar mais limpo. Aos poucos, porém, fomos ficando mais tristes, à medida que chegavam os números crescentes de infectados e mortos pelo mundo. O inimigo invisível à espreita, fechando o cerco.

     Estou esperando. Você não vai ter coragem de falar que de manhã um passarinho tátátá, que uma brisa sei lá o quê, com todo o sofrimento em volta, vai? Ou você não está vendo, escancarada, a realidade do Brasil tão pobre, sujo, carente, ali onde justamente o vírus vai colher suas vítimas em maior número?

     Vamos lá. Diga alguma graça ou, pior, algum assunto nobre para ver o tamanho da vaia. Os ovos já estão na mão, os croques, a postos. Se vier com o papinho manjado de flor, chuva, poente, estrela, então, saiba que as lâminas foram afiadas.

     Ouça esse silêncio. Todos trancados em casa, procurando ser colaborativos. Mas não se engane: não há paz ou orgulho nesse silêncio, ele é o som do medo. Os homens, os pretensiosos homens, estão indefesos, não sabem como se proteger ou o que será da vida. Os investidores não sabem como prever, os professores, como ensinar, os palhaços, como divertir, os suicidas, como se antecipar.

     E o cursor em forma de seta a beliscar o branco da tela.

     Vou à cozinha beber água. Semana passada Rubem Fonseca nos deixou. No dia anterior, Moraes Moreira. Em seguida, Garcia-Roza. Não é privilégio de dia algum caber a morte de alguém, mas nesses dias parece que o desalento é maior, parece perseguição do destino.

     Há um bom tempo eu não fazia o teclado esperar tanto, paralisado, sem coragem de me embrenhar nos assuntos. O cronista foi desmascarado em toda a sua inutilidade. O vassalo está nu.

     Vou à janela espiar a ausência. Uma nuvem assume a forma de um… não, não, você não vai dizer, vai? Por favor, tenha dó, um mínimo de compostura. Ao menos que seja para contar que a nuvem não lembra um elefante, mas sim a nuvem de enxofre, um incêndio criminoso, gás mostarda lançado por terroristas, um cogumelo atômico, algo que esconda essa irritante tendência à pieguice.

     O cursor aponta a flecha para mim. Como é que é? Vamos, cronista, escreva. Quero só ver.

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