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Wednesday, March 3, 2021
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Cartel de drogas no México: “Nós cuidamos do nosso povo e sempre os ajudamos”

“Àquele que dá alimento a todos os seres vivos. A sua misericórdia dura para sempre.” Salmos 136:25 E assim acontece…

By Redação , in Mundo News & Trends , at 12/11/2014 Tags:

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

“Àquele que dá alimento a todos os seres vivos. A sua misericórdia dura para sempre.” Salmos 136:25

E assim acontece nos cartéis de drogas que sobrevivem com pouca misericórdia e muita ajuda do YouTube.

Em um vídeo que tem circulado na web, os membros do Cartel do Golfo, um dos maiores do México, são mostrados distribuindo bolos tradicionalmente consumidos pelos católicos durante a semana que antecedeu a Epifania. Eles visitam o que parecem ser escolas, hospitais, asilos e bairros pobres no nordeste do estado de Tamaulipas, e entregam o doce presente aos moradores que, por vezes, parecem ansiosos, e em outros momentos apreensivos.

“Nós cuidamos do nosso povo e sempre o ajudamos”, diz uma legenda do vídeo, embora com erros de ortografia. Precário e fora de foco, o vídeo parece ter sido filmado com uma câmera de mão e editado em casa. No começo das imagens, seis meninos sorriem ansiosos enquanto seguram bolos de 60 centímetros de largura em forma de rosquinhas, com enfeites vermelhos, brancos e verdes – as cores da bandeira mexicana.

Enquanto o presidente Enrique Peña Nieto concentra seus esforços em prol da economia saudável do México, as organizações criminosas estão apertando o controle sobre vastas regiões do país e mostrando os seus triunfos nas crescentes plataformas públicas, diz Pedro Isnardo de la Cruz, um especialista em segurança da Universidade Autônoma Nacional do México.

O vídeo viral, dizem eles, é a arma mais recente que não usa a violência, mas ainda devastadora da guerra às drogas: as relações públicas do narcotráfico.

Os cartéis tornaram-se conhecidos por seus métodos brutais. Durante anos, as pessoas tremiam com o pensamento do traficante colombiano Pablo Escobar, que controlava mais de 80 por cento da cocaína que entrava nos Estados Unidos. “Para Escobar, não importava se você fosse um homem, mulher ou uma criança. Se você fosse morrer, ia morrer mesmo. Se tivesse que matar o pai, ele matava a família inteira”, diz Max Mermelstein , um ex-traficante de drogas, em “O Poderoso Chefão da cocaína”, de 1997.

Quando o ex-presidente Felipe Calderón declarou guerra aos grupos criminosos no México em 2006, ele indiretamente desencadeou um novo nível de bandidos. O cartel jogava cabeças humanas em pistas de dança lotadas. Costuraram o rosto de uma vítima em uma bola de futebol e penduraram corpos quase nus nas pontes de rodovias movimentadas.

Mas os chefões do tráfico sempre souberam que era necessário um pouco de açúcar para melhorar a sua imagem que se comprometia rapidamente. Ajudar as comunidades em que atuam incentiva a população a “não vê-los como inimigos, mas sim como pessoas que podem ajudar, de modo que, quando há uma operação policial, a comunidade não vai denunciá-los”, diz Jorge Chabat, uma especialista em drogas e segurança do CIDE, uma universidade de pesquisa na Cidade do México. O cartel também planta as sementes para futuros recrutas, Chabat acrescentou.

Na década de 1980, Escobar construiu campos de futebol e de habitação pública, investiu em programas de reflorestamento e em projetos de iluminação pública. Ele se tornou tão amado em algumas partes da Colômbia, que no retrato de sua morte, o  pintor Fernando Botero incluiu uma mulher que chorava sobre o corpo do traficante baleado.

Alguns barões da droga também são conhecidos por seus esforços na orientação moral. Em 1995, Osiel Cárdenas Guillén, o antigo líder de renome do Cartel do Golfo, enviou um grande carregamento de brinquedos para Tamaulipas. Desde palhaços que entretinham a multidão, até doação de bonecas, bicicletas e patins para as crianças. Em cada brinquedo havia um adesivo que dizia: “a perseverança, a disciplina e o esforço são a base para o sucesso. Continue estudando para ser um grande exemplo. Feliz Dia das Crianças. Com todo o meu carinho por um triunfante amanhã, seu amigo Osiel Cárdenas Guillén”.

Os membros das organizações criminosas no México também são conhecidos por dar esmolas às igrejas e oferecer festas públicas infantis.

Os cartéis, tal como a vigente indústria de mídia, adaptaram-se a uma paisagem cada vez mais digital. Já não são mais amadores, os banners de vinil que os grupos criminosos colocam em torno das cidades enviam mensagens tanto para a população quanto para os cartéis rivais, o que é suficiente. Agora estes grupos fazem mídia social, uma parte fundamental da estratégia de comunicação.

“Eles estão atentos para inovar o diálogo com as pessoas”, disse Isnardo de la Cruz. As ferramentas como o Facebook e o YouTube “lhes permitem construir um sistema de comunicação mais eficaz, com maior alcance”.

Um grupo no Facebook chamado “Cartel del Golfo – CDG “, criado na segunda-feira, dia 6 de janeiro, expõe fotografias de seus membros, com os rostos borrados. Nas imagens, os homens e algumas mulheres – mostram suas armas banhadas a ouro, ficam na posição de combate em postos de controle do cartel ao longo de rodovias e descansam sobre pedras cercadas por árvores. Uma legenda explica que eles estão lutando contra um cartel rival a fim de “defender” o seu domínio sobre a cidade.

Em 2011, um vídeo apareceu no YouTube mostrando duas dezenas de homens vestidos de preto, com os rostos cobertos e as mãos firmemente segurando rifles. Nas imagens, eles olham para a câmera e uma narração explica o objetivo do grupo: livrar o Estado de Veracruz do Cartel Zetas, que vinha aterrorizando os moradores inocentes. “Desde 2006, temos lutado pela tranquilidade e segurança de todos e por cada um dos nossos compatriotas no estado”, diz a voz .

Em setembro, depois das costas do Pacífico e do Golfo do México serem simultaneamente devastadas por tempestades tropicais, um vídeo surgiu, mostrando os membros do Cartel do Golfo prestando socorro às vítimas. Como muitos outros vídeos de sua espécie, que foi publicado pelo ElBlogDelNarco, um site gerido por um cidadão que frequentemente publica relatórios gráficos e fotografias de massacres em todo o México. As dicas da população em geral são a principal fonte de informações do site, de acordo com o administrador. O “Blog del Narco não é contra ou a favor de qualquer grupo criminoso”, diz sobre sua página, que descreve a missão do site como informar “com muito mais eficiência, veracidade e melhor documentação que muitos outros sites e jornalistas profissionais”.

Pouco depois do Natal, o ElBlogdelNarco publicou um vídeo, de quase sete minutos de duração, mostrando os membros do Cartel do Golfo oferecendo jantares gratuitos para adultos e brinquedos para as crianças em Reynosa, Tamaulipas. No vídeo, os membros do cartel visitam o hospital público, o terminal de ônibus principal e o centro histórico, atraindo multidões e entregando pizzas. Os pais levam seus filhos pela mão até os caminhões onde os homens entregam os presentes. Em uma cena, os homens e mulheres que pegam essas esmolas aclamam o cartel.

E as autoridades? Não são encontradas.

Alguns analistas dizem que vídeos como esses – destinados a angariar o apoio da população e provocar os cartéis rivais lembrando-os de que a sua quadrilha ainda está operando em uma determinada cidade – mostram o quão extenso é o vácuo do poder no México e como é fácil ser preenchido por grupos criminosos.

“É um sinal nítido, muito preocupante para o país, que o crime organizado e as questões relacionadas com o narcotráfico não estão melhorando”, diz Isnardo de la Cruz. Pelo contrário, declara Isnardo, os cartéis estão “se adaptando às novas realidades da comunicação virtual.”

© 2014, Newsweek.

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