fbpx
Saturday, August 8, 2020
-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-


Reparando bem

Reparando bem O cronista nada mais é que um reparador. Aquele sujeito meio abobado que anda olhando para o alto…

By admin , in Coluna , at 11/11/2014

CassioZanata

Reparando bem

O cronista nada mais é que um reparador. Aquele sujeito meio abobado que anda olhando para o alto em busca de assunto e tropica no que estiver embaixo. Às vezes até pisa onde não deve. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo.

É preciso reparar na caixa de marimbondo na parede de vidro do banco. É preciso reparar no carroceiro que passa com uma caixa acústica tocando Elvis. Na marca de tiro no tronco da árvore. No segurança jogando uma cantada na gostosa do bairro. No avô que invadiu a ciclovia proibida aos carros, para empurrar a tonquinha do neto.

É preciso reparar. E se valer a pena, contar para quem passou sem ver, por pressa ou pela cabeça ocupada em assuntos mais urgentes. Reparar leva tempo e não é todo mundo que o tem.

Repare que eu quis dizer contemplação, não vagabundagem. Cronista não tem sossego, dorme de olho aberto, atento aos desacontecimentos, à espera de minúsculos sustos e grandes pequeninices.

Só que a vida não é fácil, amigo. Às vezes o cronista é chamado a reparar de verdade. Torneiras, por exemplo. Trocar a lâmpada da cozinha. Nesses reparos, não conte com ele, trata-se de um inútil, prestativo tipo ameba, tem duas mãos esquerdas e elas mal se falam.

Pensando bem, um cronista não é de muita serventia mesmo. Para saber os rumos da economia, evite seus chutes. As chances do seu time no campeonato, procure opiniões mais gabaritadas. Nas reuniões de condomínio, não conceda a palavra ao cronista. Não conte com ele para puxar o “parabéns” nos aniversários, nem para filmar batizados. No caso de cortes na empresa, é comum ao cronista ouvir “e o que a gente faz com esse banana aqui?” No caso de revolução comunista, deve estar na mira dos primeiros paredões.

No entanto, ele segue. Fazer o quê? Dia desses eu ouvi de uma amiga da minha mulher, uma holandesa gente boa, uma história igualmente boa. Ela contava que seu cunhado, ao saber que ela vinha para essas bandas, pediu que lhe confirmasse, impressionado, se era verdade que no Brasil havia borboletas voando livres, assim, soltas, no meio da rua.

Sim, amigo holandês. Sou testemunha de que borboletas ainda voam pelas ruas do Brasil. Meio assustadas entre os carros, a pressa, as balas perdidas, as carroças que tocam Elvis e os cavaletes de propaganda eleitoral, mas resistem.

Quem tocaria nesse assunto de extrema importância para o entendimento dos povos a não ser um cronista banana? Está certo que o vazamento lá em casa continua. Está mais difícil ler de noite sem trocar a lâmpada. Não era hoje o dia de pegar Maria no ballet?

E por que tanto aquele cachorro ali implicou e fica latindo para o fiscal da CET?

__________________________________________________________________________________________________________
Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

Comments


Deixe uma resposta


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *