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Retrospectiva 2015

Retrospectiva 2015 Janeiro. Um homem e uma mulher se olharam com espanto e maravilha no vagão do metrô e o…

By Redação , in Coluna , at 29/12/2015

CassioZanata

Retrospectiva 2015

Janeiro. Um homem e uma mulher se olharam com espanto e maravilha no vagão do metrô e o estrondo seguido de tsunami chegou a nove países, incluindo a costa da Bolívia. Dirá o leitor atento que a Bolívia não tem litoral, o que somente prova que esse leitor não tem imaginação.Fevereiro. Num fim de tarde na zona rural de Muzambinho, cento e vinte aranhas atravessaram uma enorme teia entre as duas palmeiras da família Bastos. O fenômeno, conhecido por “chuva de aranhas” teve até vídeo na internet. De positivo, o fato de que nenhum carro estacionou em frente à casa da família, debaixo das já referidas palmeiras, antiga reinvindicação do senhor Bastos. Já a senhora Bastos foi dormir na cidade, na casa da mãe, vizinha ao Fórum, sob a alegação de que há limites.

Março. Uma abelha bateu asas e provocou um deslocamento de ar imperceptível, mas que mais adiante virou uma aragem, que virou brisa, que virou vento, que virou ventania e mexeu os cabelos da menina que voltava da escola ao lado do garoto e ele sentiu como que uma picada.

Abril. Uma mulher casada há oito anos olhou para o jovem farmacêutico no balcão e teve ideias. Dois dias depois, um balão de gás escapou na praça e voou sem rumo, voou, voou, até entrar com elegância, sem esbarrar em nada, num perfeito encaixe, pela janela do apartamento de padre Klein, que nunca acreditou em milagre. O pipoqueiro Isaías foi testemunha e tudo narrou como se fosse locutor esportivo de rádio.

Maio. Foram registradas menos intoxicações por ostra do que em maio do ano passado – algo isso deve querer dizer. O doidinho de Parelheiros previu e esbravejou ao mundo que o dito cujo não passava daquele mês. E não saiu mais de casa até o resto do ano, de decepção e vergonha.

Junho. Houve um pica-pau em plena Avenida Faria Lima. Nenhuma notícia no mês foi mais importante do que essa.

Julho. Em Itajaí, um grupo de descendentes de alemães comemorou em um bar, com chopp e cantoria, o primeiro aniversário dos 7 a 1. A noite terminou com o desavisado grupo levando umas bolachas de outras mesas, onde não imperava o espírito esportivo.

Agosto. Um seminarista passou por uma banca e se deparou com um pôster de uma modelo nua. Sua convicção o impediu de comentar que se tratava de uma linda mulher. E suspirou – não se sabe se de desânimo em relação à humanidade ou de desejo. Ao cronista não cabe tirar conclusões. Enquanto isso, a pedra no morro da curva do km 76 da Tamoios não se moveu um milímetro, mesmo com centenas de pousos de aves e o passeio de formigas e lagartos em sua superfície.

Setembro. Um urubu fez suas necessidades em pleno voo e acertou o ombro de uma respeitável dama da sociedade. Que achou graça, entrou num boteco, pediu guardanapos para se limpar e, quando saiu do banheiro, um pastel de palmito com guaraná. E ainda divertiu os bêbados no balcão com sua história. Um até chorou de tanto rir, e a senhora foi buscar mais guardanapos para que ele secasse os olhos, o que a tornou mais respeitável que nunca.

Outubro. Uma chuva de granizo caiu sobre o Rio de Janeiro. Uma pedra de gelo atingiu em cheio e quebrou a tela do celular do adolescente Matias, que passava nove horas por dia nas redes sociais. Os pais mandaram celebrar uma missa de Ação de Graças e ainda mandaram um convite para o senhor Mark Zuckerberg, que não entendeu a ironia, já que nem ao trabalho de traduzir o texto os pais de Matias se deram.

Novembro. Um piloto de um Boeing 747 se distraiu olhando a lua cheia nascer no mar e quase que baubau.

Dezembro. O movimento de translação da Terra esse ano atrasou em 0,013 segundo e lamentavelmente ninguém se deu conta. O vagal da classe repetiu de ano, uma das poucas previsões para o ano que seu pai, renomado economista, acertou. Um homem vestido de Papai Noel aproveitou uma folguinha para ir fumar um cigarro, mas acabou ateando fogo na barba de algodão. Foi salvo por um outro fumante, o que sugere que essa coisa de que o fumo só faz mal é controversa.

Onzembro. Só uma ideia. Quem sabe a gente teria mais tempo para reparar nas grandes pequeninices? Moral da história: se o besouro, que está nesse mundo há bilhões de anos, muito, mas muito antes de nós, dá em seu voo cabeçadas na parede, por que a gente não pode dar? Um ano muito feliz a todos.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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